31 de out. de 2011

Hoje é "Dia D", Dia de Drummond...


4 comentários:

  1. AO TOLDO PODEROSO31/10/11 15:15

    JOSÉ

    E agora, José?
    A festa acabou,
    a luz apagou,
    o povo sumiu,
    a noite esfriou,
    e agora, José?
    e agora, Você?
    Você que é sem nome,
    que zomba dos outros,
    Você que faz versos,
    que ama, protesta?
    e agora, José?

    Está sem mulher,
    está sem discurso,
    está sem carinho,
    já não pode beber,
    já não pode fumar,
    cuspir já não pode,
    a noite esfriou,
    o dia não veio,
    o bonde não veio,
    o riso não veio,
    não veio a utopia
    e tudo acabou
    e tudo fugiu
    e tudo mofou,
    e agora, José?

    E agora, José?
    sua doce palavra,
    seu instante de febre,
    sua gula e jejum,
    sua biblioteca,
    sua lavra de ouro,
    seu terno de vidro,
    sua incoerência,
    seu ódio, - e agora?

    Com a chave na mão
    quer abrir a porta,
    não existe porta;
    quer morrer no mar,
    mas o mar secou;
    quer ir para Minas,
    Minas não há mais.
    José, e agora?

    Se você gritasse,
    se você gemesse,
    se você tocasse,
    a valsa vienense,
    se você dormisse,
    se você cansasse,
    se você morresse...
    Mas você não morre,
    você é duro, José!

    Sozinho no escuro
    qual bicho-do-mato,
    sem teogonia,
    sem parede nua
    para se encostar,
    sem cavalo preto
    que fuja do galope,
    você marcha, José!
    José, para onde?

    Carlos Drummond de Andrade

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  2. Sociedade
    O homem disse para o amigo:
    – Breve irei a tua casa
    e levarei minha mulher.
    O amigo enfeitou a casa
    e quando o homem chegou com a mulher,
    soltou uma dúzia de foguetes.
    O homem comeu e bebeu.
    A mulher bebeu e cantou.
    Os dois dançaram.
    O amigo estava muito satisfeito.
    Quando foi hora de sair,
    o amigo disse para o homem:
    – Breve irei a tua casa.
    E apertou a mão dos dois.
    No caminho o homem resmunga:
    – Ora essa, era o que faltava.
    E a mulher ajunta: – Que idiota.
    – A casa é um ninho de pulgas.
    – Reparaste o bife queimado?
    O Piano Ruim e a comida pouca.
    E todas as Quintas-Feiras
    eles voltam à casa do amigo
    que ainda não pôde retribuir a visita.

    Carlos Drummond de Andrade

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  3. Mas, até parece que Drummond conheceu o casal.

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  4. Ai que tristeza, amo o Rio.
    Queria estar lá.

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