Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA

24 de abr. de 2024

Exposição Hiromi Nagakura até a Amazônia com Ailton Krenak no CCBB- RJ por Valéria del Cueto


Mato Grosso nas fotos e memória do samurai das imagens

Texto, fotos e vídeos de Valéria del Cueto

O Rio de Janeiro está efervescente nesse outono com eventos por toda cidade. O mais esperado é o show de Madona, na praia de Copacabana, dia 4 de maio. Esse é um dos muitos acontecimentos que atrai visitantes e moradores e, num deles, Mato Grosso está presente.

O estado se faz representar na Cidade Maravilhosa por um olhar do outro lado do mundo. O do samurai das imagens, um fotógrafo japonês, na Exposição “Hiromi Nagakura até a Amazônia com Ailton Krenak".

Para situar, Ailton Krenak é o primeiro representante dos povos originários a se tornar imortal ocupando uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, a ABL. Sua posse, dia 5 de abril, foi num evento que emocionou seus pares, ilustres convidados e nações indígenas que foram alcançadas graças a tecnologia que permitiu a transmissão da cerimônia pelo streaming. 

As 160 imagens que compõem a exposição, idealizada pelo Instituto Tomie Ohtake, de São Paulo, ocupam várias salas do Centro Cultural do Banco de Brasil no coração do Rio, ao lado da Praça Mauá, até o dia 27 de maio e, agora, divide o espaço do prédio histórico com "Mundo Zira”, mostra sobre o jornalista e cartunista Ziraldo que nos deixou no início do mês. Os eventos são gratuitos!

De um lado, a algazarra das crianças. Do outro, os mistérios de uma Amazônia impenetrável, a não ser com um guia como Krenak. O fotógrafo japonês e ele, com o auxílio de uma intérprete, percorreram na década de 1990 em várias expedições, os estados do Acre, Roraima, Pará, Amazonas, Maranhão, São Paulo e... Mato Grosso. Se tornaram grandes amigos registrando e convivendo com a diversidade cultural dos povos originários brasileiros.

As imagens são inéditas no Brasil, numa seleção diferente da apresentada em São Paulo (dá para imaginar a quantidade de fotos feitas nas viagens?), em diferentes tamanhos, algumas gigantescas, agregando outra novidade: objetos cotidianos de diferentes etnias. A maioria pode ser manuseada e "vestida" pelo público.

O evento também é enriquecido com rodas de conversar com Nagakura, Krenak e lideranças indígenas que contextualizam o universo abordado e pelo tempo decorrido entre a captação e a exposição, em alguns casos, agora inexistentes.

Já na rotunda do CCBB, marco arquitetônico do prédio, uma instalação indica a potência dos registros feitos pelo premiado fotógrafo japonês que percorre o mundo em busca de imagens em campos de refugiados e praças de guerra na África do Sul, Palestina, El Salvador, Afeganistão...

As vindas à Amazônia foram um respiro, apesar dos problemas já latentes como invasões, conflitos de terra, garimpos ilegais, depois do mergulho no inferno global, como explica Ailton Krenak no texto de apresentação da exposição que resume as 7 viagens pela Amazônia.

O conjunto das imagens do fotógrafo que virou a sombra do, agora imortal escritor indígena, expõe a vida nas comunidades visitadas numa linguagem universal traduzindo o carinho, o afeto e a sensibilidade ao eternizar nos registros do cotidiano das comunidades que, certamente, foram afetados pelo intenso contato, em alguns casos, com a civilização nos últimos 30 anos.

São registros de mundos quase perdidos. Majestosos e pungentes. Não há como não se deixar levar pela beleza e delicadeza expostas em diversos formatos do rico material apresentado.

Registre-se que Hiromi é um dos responsáveis por chamar a atenção mundial em exposições, documentários e livros do exuberante e ameaçado universo Yanomami.

Clique no LINK para percorrer o álbum

Mato Grosso está presente em imagens do cerrado (mais um bioma ameaçado) da aldeia Xavante de São Pedro, na terra indígena de Parabubure, em Campinápolis, numa das amplas salas do CCBB.

Segundo Krenak, o que impressionou o samurai das imagens foram a força, a determinação Xavante e o sentido de vida coletivo do povo cujos homens de reúnem no pátio da aldeia para sonharem juntos. “O sonho direciona a vida, dá o rumo, a orientação, responde a todas as questões. É no sonho que chegam os cantos, transmitidos pelos ancestrais e partilhados com todo o povo da aldeia”.

Imaginou a força dessa imagem?... ou melhor, nem tente usar sua imaginação, visite a exposição!

Texto de apresentação do espaço dedicado aos A'uwê Uptabi, o povo Xavante:  

“O povo Xavante se autodenomina A'wuê Upptabi - "gente verdadeira". É guerreiro e caçador. Vive nos vastos campos do cerrado, desde que os ancestrais atravessaram o Rio das Mortes há quase 200 anos. Resistiram bravamente à entrada das frentes de atração na década de 1940, atacando com flechas e bordunas os aviões que sobrevoavam a aldeia. A pacificação dos "warazu" - os estrangeiros - se deu a partir de 1946 durante a Grande Marcha para o Oeste, iniciada no governo de Getulio Vargas (1930-1945).

Apesar de terem nove Terras Indígenas demarcadas, em diferentes municípios do estado do Mato Grosso, cada uma delas lida com diferentes ameaças ao patrimônio físico e cultural, com interferência de religiões, agronegócio, projetos de desenvolvimento e avanço das cidades. 0s Auwê são de uma linhagem antiga, vieram da raiz do céu. Os homens usam o brinco gravata cerimonial de algodão. Homens e mulheres se pintam com jenipapo, carvão e urucum, tiram as sobrancelhas e os cílios, usam cordinhas nos pulsos e pernas. 0 corte de cabelo, os adornos e pinturas dão identidade ao povo Xavante que segue praticando seus rituais de formação dos jovens e iniciação espiritual. O sonho direciona a vida, dá o rumo, a orientação, responde a todas as questões. É no sonho que chegam os cantos, transmitidos pelos ancestrais e partilhados com todo o povo da aldeia.

A cerimônia de furação de orelha e um marco para toda a comunidade. Acontece a cada 5 anos, quando os meninos que ficaram reclusos na casa dos solteiros completam seu aprendizado dos princípios da tradição.

Nagakura-san ficou impressionado com a força e determinação do povo e com ○ sentido de vida coletivo. As imagens revelam essa admiração nas danças circulares e no grupo de homens deitados no pátio central, reunidos para sonharem juntos”.

PS: Visitei o CCBB acompanhada por um cuiabano de chapa e cruz com quem pude beber dessa fonte de energia, observar suas reações. Meu companheiro foi o ator Ivan Belém, em quem presenciei o impacto do universo que nos foi apresentado. Ele é o “personagem-espectador” que aparece nos registros. Que privilégio.

A emocionante cerimônia de posse de Ailton Krenak na Academia Brasileira de Letras, ABL.


https://www.youtube.com/watch?v=a4-sXz3_ZWI

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Parador Cuyabano”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

2 de abr. de 2024

Falhando, mas entregando! por Valéria del Cueto

Falhando, mas entregando!

Texto e foto de Valéria del Cueto

Estou me apegando a todos os santos e mandingas pra fazer esse texto pegar no tranco. Sorte que não sou um mecanismo digital ou hidramático, o que significa que um bom empurrão faz algum efeito sobre uma bateria exaurida. No caso, a minha.

Daqui a pouco ninguém mais vai saber do que trata essa metáfora automotiva do milênio passado, eu sei. Como também sei que estou, de novo, passando por aquele momento “se não tenho nada pra acrescentar, o melhor é calar”.

Só que essa hipótese pode trazer um prejuízo irrecuperável à regularidade das crônicas do Sem Fim. Queria que esse fosse o dilema atual da escrevinhadora. Só que não é. Os motivos das últimas rateadas são mais prosaicos.

Depois de eleger as areias das praias cariocas como espaço/tempo para desenhar as sempre mal traçadas linhas das páginas de muitos caderninhos - primeiro, na Ponta de Leme, de onde sou cria, há décadas atrás e, mais tarde, no paredão do Arpoador ou na sempre invisível Praia do Diabo, saí procurando outro paraíso que estimulasse, se não minha imaginação, ao menos meus vastos e inconstantes pensamentos catapultados pelo oceano de informações que, hoje, chegam a qualquer lugar pelas ondas indomáveis da Nazaré das redes sociais.

É justamente esse tsunami e todos os rejeitos que ele produz em sua rota de destruição que acaba provocando uma inversão na dinâmica de produção de conteúdo.

Em vez de garimpar pepitas brutas escondidas nas dobras do pensamento que chegam com as marés somos obrigados a virar catadores nos lixões irregulares transbordantes de chorume, com espumas de tolices, gosmas de sandices e dejetos movediços de horrores que nos impedem de depurar sentimentos, “dexavar” ideias, burilar conceitos.

Somos movidos por efemérides pré-estabelecidas e teorias rasamente concebidas por algoritmos gerados e comandados pela... inteligência artificial.

Aquela que dita regras como a de que “temos que ter um nicho” de ação na rede, por exemplo. Postar várias vezes ao dia, outra exigência. Ter uma “comunidade”, mais uma. Mostrar a cara. Expor sua rotina...

Estou lascada já na largada para esse “salto mortal digital” com esse meu complexo de senzala, como diz meu pai, que me impede de obedecer a qualquer regra ditada por sei lá quem quando era gente e o que pra IA que nos comanda e nem ser humano é. Sempre fui guiada por uma força estranha que me impede de ter amo e/ou senhor, como dizia o samba do Paraíso do Tuiuti de 2018. Não à toa um dos meus codinomes era “rebelde”.

Não foi por falta de tentativa de fazerem da minha, uma vida mais fácil nesse mundo que já não existe mais. Mundo esse, em que a individualidade tinha algum valor e bastava que essa chama fosse sempre (bem) alimentada com o conhecimento que gerasse argumentos para resistir ao assédio do mais do mesmo.

Dancei. Ou não, porque nem assim sucumbi e me orgulho de seguir pensando e expondo meus delírios nos últimos 20 anos.

Meu problema é com uma consequência dos ouvidos moucos feitos por todos os que, voluntariamente, ou não, ignoraram todos os alertas sobre as mudanças do planeta. Sim são eles, já cantados por Jorge Mauter e Nelson Jacobina no século passado: os mosquitos!

Especificamente o Aedes que transmite Zika, dengue, Chikungunya e, desde sempre a febre amarela, agora adormecida. Doenças virais capazes de tocar horror no sistema de saúde e exponencializar meu impedimento de uma produção literária sacralizada.

Eles mordem! E, cá entre nós, não se assustam mais com DDT, sprays e receitas caseiras de proteção. Estão dando de mão e comandando o jogo da saúde popular. E da minha crônica. Foi uma mordida no joelho repleto de creme protetor fedorento que me fez, mais uma vez, fechar o caderninho e dar por encerrado esse texto.

Mas só esse. Porque, assim como posso ignorar a ditadura artificial, serei capaz de mudar meu ritual e seguir falhando, mas entregando os rabiscos e fotos que registram meu tempo e o que vejo no planeta.      

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica das séries “Não sei onde enquadrar” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com



    Studio na Colab55

11 de mar. de 2024

O bloco dos insensatos, por Valéria del Cueto


O bloco dos insensatos

Texto, foto de Valéria del Cueto

Ah, cronista enclausurada. Se humano fosse diria que estou com... saudades. Ausente por tantas luas sinto falta da nossa correspondência unilateral já que cabe a mim, Pluct Plact, o extraterrestre, manter esse monólogo noticioso com você que escolheu se isolar voluntariamente nessa cela do outro lado do túnel.

Pra falar a verdade andei suave na nave do abandono da amiga pois tinha certeza que solita você não esteve. Afinal, os últimos meses foram aqueles que mantém o fio terra que a liga (ainda) a esse mundo fantástico, o do carnaval. Acho que senti sua energia oculta enquanto, do alto do Arco da Apoteose, na dispersão, apreciava o desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí.

Essa foi, inclusive, uma das razões que evitei usar nosso canal de comunicação, o raio da luz da lua que entra pela janela e banha sua cela de reclusa. Vai que alguém sentisse o movimento, resolvesse dar uma espiada e, descobrindo sua ausência, desse o alarme do desaparecimento da amiga? Resolvi não arriscar e acho que fiz bem.

Estou tão quase humano que, como eles já tenho desculpas pra tudo, mesmo que impossíveis. Andei aperfeiçoando essa característica que, pessoalmente (olha eu “pessoa”) não considero uma qualidade, acompanhando os últimos acontecimentos aqui da Terra onde, pra variar, pululam as guerras. Outro bom argumento para deixa-la livre, leve e solta nos preparativos e durante a folia. Sabe lá como será o próximo carnaval?

Se me preocupei com alguma coisa foi com sua condição física precária para aguentar as idas e vindas na extensão da avenida. Fiscalizei a retirada de vários componentes estendidos nas macas pilotadas pelos heroicos maqueiros encarregados de percorrerem a pista escoltando e carregando quem não resistia a travessia e desabava no asfalto nos dias de desfile.

Cronista, que coisa incrível a reação dos acudidos. Sofriam por males físicos, é verdade. Também pela impotência de seus corpos que não aguentavam a sobrecarga do esforço de carregarem fantasias tão elaboradas, mas... na maioria, em suas áureas, havia sempre uma cor da alegria, do prazer a todo custo. Sei que você não vai perguntar “Como assim?” porque sabe do que estou falando. Sim, eles tentaram. Podem não ter conseguido chegar aos pés da Apoteose para comemorarem seus 40 anos de existência, mas fizeram por merecer o sonho parcialmente realizado.

Como você, estar ali era mais importante que o espaço exíguo em que habita e, portanto, limita uma preparação física adequada. Como você, eles, todos eles, perdem a noção do perigo quando o ritmo do coração se mimetiza com a batida dos surdos. Como você, incorporam uma força maior que tem origem incerta e não sabida, capaz de leva-los ao extremo. Do amor, da entrega e da felicidade que se renova a cada carnaval.

Carnaval? Falei em carnaval? Jurei que esse não seria o assunto em pauta. Como a maioria das atitudes humanas que adotei desde minha chegada a esse pouso involuntário por não poder ultrapassar com minha nave essa camada poluente. A que irá, em breve, sufocar o planeta e seus habitantes, sejam eles minerais, vegetais ou humanos. Isso não é uma previsão, é uma certeza. Pedra cantada, você diria, no bingo da evolução universal.

Trazendo o assunto para seu modus vivendi (latim, querida, língua quase morta mais viva do que nunca por dela tantas serem oriundas), exemplifico com a antigamente gélida temperatura da água do mar que tanto atrapalhava a permanência no seu tempo de pegar jacarés no Leme e no Arpoador. Foram as águas oceânicas mais quentes já registradas. Aliás, o planeta está batendo recordes de calor mês após mês.

Ruim para os humanos que inertes não parecem se dar conta do tamanho do problema. Bom para os mosquitos que proliferam a rodo.

É como se o “país tropical” fosse mais que letra de música. Se agarram ao verso seguinte, o “abençoado por Deus”, sem entender quer a natureza não está nem um pouco satisfeita com o conjunto da obra e vai responder à altura. Não há mais tempo para ação. Como na Sapucaí, as saídas laterais de emergência estão obstruídas. Só há passagem no início ou no final da pista. É rezar para o pior não acontecer agora. Só depois que o bloco dos insensatos passar.      

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica das séries “Fábulas Fabulosas” e “É carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com



Studio na Colab55

16 de fev. de 2024

Alafiou! Jogo aberto nos 40 anos da Sapucaí. A Viradouro leva o título. Por Valéria del Cueto

Jogo aberto e a Viradouro leva o título

Alafiou! Jogo aberto nos 40 anos da Sapucaí.
A Viradouro leva o título.

Texto e fotos  Valéria del Cueto

Adivinha? Apesar das previsões de Esmeralda, a cigana leopoldinense em busca do bicampeonato, os búzios do jogo caíram todos abertos do outro lado da ponte, em Niterói. Assim estavam os caminhos da Viradouro em seu desfile do Grupo Especial do Rio de Janeiro no carnaval 2024, o dos 40 anos do Sambódromo.

Leandro Vieira esteve próximo da vitória durante 24 horas. A escola de Ramos foi a última a desfilar no raiar do primeiro dia de disputa. Manteve o favoritismo até a madrugada seguinte quando as guerreiras voduns do carnavalesco Tarcísio Zanon se apossaram da Marquês de Sapucaí. Não teve pra ninguém. Nem na bolha carnavalesca das redes sociais, nem na leitura das notas dos jurados. A escola terminou com um ponto à frente da vice-campeã.

A luz do amanhecer valorizando o conjunto alegórico da Imperatriz
Ambas se valeram da luz do amanhecer para emoldurarem seus vaticínios e enriquecerem as palhetas de cores dos enredos. A luz cenográfica, turbinada por tintas e tecidos fluorescentes, mudou o visual do espetáculo. A novidade escondeu ainda mais o povo do samba, já mascarado por efeitos de maquiagem. Também derrubou quem não soube utilizar os recursos.
Brasilidade tropical explícita na Mocidade.

Foi a ambientação, por exemplo, que penalizou a Vila e a Portela na apresentação dos casais de mestre-sala e porta-bandeira. No caso da Vila com um agravante.  Paulo Barros depois de tocar fogo na porta-bandeira Lucinha Lins tempos atrás na Mocidade e, ano passado, vestir o casal na pista, apagou a apresentação do pavilhão e colocou no lugar lasers multicoloridos acoplados nas vestimentas do casal da terra de Noel Rosa. Perdeu décimos preciosos, junto com o samba de Martinho da Vila(!) e o enredo de Oswaldo Jardim.

Maria Bethânia pede passagem. Homenagem a Alcione na Mangueira.

As justificativas exporão os critérios dos julgadores que deixaram de fora das campeãs a Mangueira, homenageando Alcione (perdeu no quesito de desempate, fantasia, a sexta posição), a Beija-Flor com Maceió, e acharam cica no caju tropical da Mocidade em vários quesitos incluindo o enredo, tão original, e... o samba! A Porto da Pedra teve passagem fugaz pelo Grupo e volta para o Ouro de onde sobe a campeã Unidos de Padre Miguel.

 

DESFILE DAS CAMPEÃS – Vila, Portela, Salgueiro, Grande Rio, Imperatriz e Viradouro.

Na Vila, só alas de comunidade, o chão de Noel.
A reedição da Vila de "Gbalá", enredo de Oswaldo Jardim de 1993, abre a noite das Campeãs trazendo o axé das crianças salvando o planeta ao realimentar as energias de Xangô ao som da bateria de Mestre Macaco Branco e o lindo samba de Martinho da Vila canetado em 2 décimos.

O tempo passa, o “defeito de cor” permanece. Marinete Franco e outras mães relembram suas dores.
A Portela a volta às campeãs depois de ficar de fora no ano de seu centenário. O enredo “Um defeito de cor” conseguiu mais um recorde carnavalesco. O livro de Ana Maria Gonçalvez se esgotou na gigante Amazon! Que rapidamente repôs o estoque do fenômeno literário.  


Vida na tribo Yanomami, janela aberta para o mundo pelo Salgueiro 

O Salgueiro é a primeira das três agremiações que desfilaram na noite de domingo a retornar a avenida. “Hutukara” trará de volta o casal Marcella Alves e Sidcley. Assim como os casais da Imperatriz, Grande Rio e Mangueira, eles gabaritaram no quesito mestre-sala e porta-bandeira. Dos quatro, o único que não se apresenta no sábado é Cintya Santos e Matheus Olivério, da verde e rosa.
A onça da Comissão de Frente da Grande Rio

Na Grande Rio, com “Nosso destino é ser onça”, a proposta de Gabriel Haddad e Leonardo Bora teve um bom desempenho nos quesitos plásticos inovando novamente nos materiais. A clareza do enredo, o samba e harmonia não deixaram a onça beber a água de mais um campeonato. Destaque aos felinos da alegoria da comissão de frente e o de Paola Oliveira, reinando na bateria.

A Imperatriz Leopoldinense, última escola a desfilar no domingo planejou seu desfile para o amanhecer. Vamos ver como as criações de Leandro Vieira se comportarão na luz noturna. Tomara que seja fixa, ou se altere suavemente. Os recursos do neon e da fluorescência acabarão cansando. Não precisa de búzios nem bola de cristal para chegar a essa conclusão.

Rute Alves e Julinho Nascimento, o casal campeão
A Viradouro encerra o sábado das campeãs, comemorando merecidamente seu terceiro título com “Arroboboi, Dangbé” e dando uma aula sobre a serpente, símbolo da vida, regeneração e recomeço nos cultos voduns vindos da Costa da Mina, na África. Uma aula. Mais uma lição das escolas de samba da cultura popular brasileira.


O desfile das Campeãs do RJ será transmitido no sábado, no Multishow a partir das 21:30h, horário de Brasília
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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É carnaval”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

Clique no link para acessar o álbum do acervo carnevalerio.com



Studio na Colab55

8 de fev. de 2024

Pede que dá. Lá vem a emoção! 40 anos do Sambódromo da Sapucaí, por Valéria del Cueto

Pede que dá. Lá vem a emoção!

40 anos do Sambódromo da Sapucaí

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Uma série de muitas temporadas passa pela cabeça de quem testemunhou a revolução que a obra arquitetônica (construída em 120 dias pelo governador Leonel Brizola, incentivado pelo antropólogo Darcy Ribeiro e criada por Oscar Niemeyer no berço do samba carioca), produziu na manifestação que se transformou num dos maiores espetáculos de cultura popular da Terra. O desfile das escolas de samba da elite do carnaval, ano após ano, alcança milhões de espectadores ao redor do planeta.

A pista da Passarela do Samba é caixa de ressonância de temas explorados pelas agremiações em seus enredos trabalhados por meses a fio pelas comunidades da região metropolitana envolvidas na preparação da f(r)esta.

Paola Oliveira precisa de legenda?

Nesse período, que virou o século e ultrapassou o milênio, quantas vezes se decretou que “o samba sambou”? A festa se renova e adapta aos novos tempos.  Incorpora tecnologia, quebra barreiras de modismos e se ressignifica conforme a dança enquanto luta heroicamente para não perder sua essência, preservar a ancestralidade e preparar os futuros sambistas.

Furando a bolha - Entre muitas tentativas de atrair a atenção das novas gerações com o incremento de ações de marketing, que incluíram o lançamento das latinhas de cerveja homenageando as agremiações e a aposta maciça em conteúdos nas redes sociais, o que acabou sendo o agente catalizador que marcará o carnaval de 2024 e explodiu, como há muito tempo não se via, no pré-carnaval foi... um samba!

Campeã nas paradas de sucesso desde o réveillon, a composição canta as qualidades de um produto tipicamente brasileiro, o caju. Defendida performaticamente por Zé Paulo Sierra, exalta a fruta tropical e a irreverência numa letra cheia de picardia que tem, entre seus autores, o humorista Marcelo Adnet. O refrão chiclete da Mocidade Independente de Padre Miguel caiu na boca do povo pelo país afora!

Ensaios técnicos - Foi o caju que botou a Sapucaí para cantar já na abertura dos ensaios técnicos dos finais de semana de janeiro realizados, pra variar, em meio as chuvas que castigaram o Rio. Justiça seja feita: as tempestades que fecharam, por exemplo, a principal artéria metropolitana, a Avenida Brasil, não alagaram a Marquês de Sapucaí. Sinal que esse ano o dever de casa foi feito com antecedência e o sistema de drenagem de esgotos do local previamente limpo. Os sambistas molhados, mas não empoçados, agradecem!

Parangolé cenográfico - Na missão de se adequar às exigências das transformações tecnológicas de produção de mega espetáculos vamos para o terceiro ano de implantação da iluminação cênica da pista. Assim como na questão do gigantismo das comissões de frente, ainda não há unanimidade na utilização dos 570 refletores e todo o caríssimo aparato envolvido.

Nem todas as escolas vão aderir a utilização dos recursos disponibilizados. Caso da campeã de 2023, a Imperatriz Leopoldinense. Seu carnavalesco, Leandro Vieira, foi protagonista de uma das polêmicas pré-carnaval nas redes ao afirmar que a luz privilegia os carros alegóricos, mas esconde os sambistas e as fantasias criadas para contar o enredo.

Cig(Bai)anas da Imperatriz, o bi traçado na palma da mão?

Nos intervalos entre os desfiles a ambientação do sistema de iluminação deixa a pista parecendo “casa da luz vermelha”. Aquelas das currutelas do sertão profundo. Cansa. Vamos combinar que sua melhor utilização foi justamente quando ela se apagou, no ensaio técnico do Salgueiro, para que os vagalumes/lanternas dos componentes passeassem pela penumbra da floresta Yanomami do enredo Hutukara.

A fila anda e o que foi revolucionário há 40 anos ganha novos contextos. Algumas intervenções são absorvidas, outras ficam na pista. A nova geração que assumirá os destinos da LIESA, a Liga da Escolas de Samba, implanta a marca @RioCarnaval. Sob o comando do herdeiro de Anísio Abraão David, Gabriel, ela repagina a folia e delineia, mais uma vez, o avanço dos camarotes temáticos sobre as frisas da passarela.

O culto a ancestralidade garante a aposta: o futuro é o samba.

A pista, por enquanto, continua sendo território demarcado do povo samba. Corpo, voz, consciência e chão da essência de valor incalculável de uma das manifestações culturais mais relevantes do Brasil.

Domingo 11 de fevereiro

Quem abre os desfiles do carnaval 2024 é a Porto da Pedra, campeã do acesso. O carnavalesco Mauro Quintaes aposta no cordel do "Lunário Perpétuo - A profética do saber popular" celebrando seus ensinamentos e desdobramentos com Antônio da Nóbrega como guia do enredo da comunidade de São Gonçalo.

Também vem do nordeste o tema da Beija-Flor "Um delírio de Carnaval na Maceió de Rás Gonguila". Nilópolis chega com sua força máxima, capitaneada por Neguinho da Beija-Flor, os condutores de seu pavilhão, Selminha Sorriso e Claudinho, e a força de sua comunidade.

Na pista e nas arquibancadas, o protesto pela proteção aos indígenas


É "Hutukara" o grito de protesto do Salgueiro que o carnavalesco Edson Pereira faz retumbar na Sapucaí sobre a questão Yanomami. A comissão de frente de Patrick Carvalho promete impactar a plateia. Até o ator Leonardo di Capri já mencionou o enredo em suas redes sociais. Furou a bolha...

A Grande Rio em “Nosso destino é ser onça”, de Leonardo Bora e Gabriel Haddad, faz uma viagem antropológica pelo Brasil profundo. Vamos ver se a onça vem beber água na Sapucaí.

A onça, nossa conhecida, a protagonista do desfile da Grande Rio


"O Conto de Fados" da Unidos da Tijuca quer revelar em seu samba fadado, com grandeza e encantos, segundo o carnavalesco Alexandre Louzada, versos do pequeno imenso Portugal na voz de seu interprete Ito Melodia.

A Imperatriz Leopoldinense tenta o bicampeonato e fecha a noite de domingo falando do universo cigano no enredo "Com a sorte virada pra lua, segundo o testamento da cigana Esmeralda". Sem luz cenográfica, já que Leandro Vieira pretende usar a luz do nascer do dia para valorizar a estética de sua proposta.

Segunda 12 de fevereiro

Quem abre a noite é Mocidade Independente com a sinopse tropicalista criada por Fábio Fabato e desenvolvida por Marcus Ferreira, “Pede Caju Que Dou… Pé de Caju Que Dá”. Já vimos nos ensaios técnicos o efeito Zé Paulo Sierra e da Não Existe Mais Quente, a bateria de Mestre Dudu, nas arquibancadas da Sapucaí. Será um sacode. Todos torcem para que essa catarse se reproduza nos demais quesitos da escola. 

Tropicalismo, a aposta estética da Mocidade

Um Defeito de Cor”, enredo da Portela, é o ponto de partida de Antônio Gonzaga e André Rodrigues para criar a carta de Luiz Gama para sua mãe, protagonista do livro de Ana Maria Gonçalvez. Atenção às bossas da Tabajara do Samba, de Nilo Sérgio, com toques dos santos e a parceria inédita do casal de porta-bandeira e mestre-sala Squel Jorgea e Marlon Lamar.

Na Vila Isabel a reedição o enredo de “Gbalá: uma viagem ao Templo da Criação”, de 1993, criado por Oswaldo Jardim, está sob responsabilidade de Paulo Barros. Embalada pelo belo samba de Martinho da Vila que prega que é preciso resgatar o futuro e, para essa tarefa, só as crianças estão aptas. A Vila já fechou com a equipe atual para o carnaval 2025.

Sou da Vila não tem jeito: o amor declarado do ritmista

A dupla Annik Salmon e Guilherme Estevão com "A Negra Voz do Amanhã", homenageia Alcione. A cantora é fundadora da escola mirim Mangueira do Amanhã. Justa homenagem em vida da comunidade verde e rosa a uma incentivadora apaixonada da Estação Primeira.


A Revolta da Chibata, de 1910, é o ponto de partida da proposta de Jack Vasconcelos no enredo do Paraíso do Tuiuti, “Glória ao Almirante Negro!”. Pixulé puxa o samba de Moacyr Luz e a rainha Mayara Lima coreografa as bossas da Bateria Super Som, de Mestre Marcão, estandarte de ouro no último carnaval.

Markinhos e Mestre Marcão 
Quem fecha os desfiles do Grupo Especial é a vice-campeã de 2023, a Viradouro. Tarcísio Zanon explora o texto de João Gustavo Melo sobre uma divindade vodum, “Arroboboi, Dangbé” para, com a bateria de Mestre Ciça, a Rainha Erika Januza e o novo reforço Wander Pires, tentar o campeonato.

Viradouro e a divindade vodum cultuada na Bahia

Desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro

Domingo 11/02 - Porto da Pedra, Beija-Flor, Salgueiro, Grande Rio, Unidos da Tijuca, Imperatriz Leopoldinense

Segunda 12/02 - Mocidade Independente, Portela, Vila Isabel, Mangueira, Paraíso do Tuiuti, Viradouro

Transmissão TV Globo e Globoplay às 22h. Sugestão: comentários da Tupi.fm

Agradecimentos à @riocarnaval, Liesa, Riotur e, especialmente, ao povo do samba que faz a festa acontecer.

Studio na Colab55