Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA

26 de abr de 2015

Ressaca, por Gabriel Novis Neves

Ressaca 
Estamos saindo de uma semana de feriados religiosos e já iniciamos o planejamento para mais uma esticadinha de descanso (até porque ninguém é de ferro), desta vez com viés cívico. 
Somos ensinados no dia a dia que tudo que nos estiver incomodando deve ser adiado. Não tem sido assim com todas as votações de interesse público? 
O pior é que a gente vai se acostumando com os feriados espichados, e depois fica difícil voltar à rotina diária. 
Até certo ponto é uma defesa do nosso organismo para se proteger do desnecessário sacrifício de trabalhar para produzir receita para o Tesouro de um país corrupto. 
Com a queda da arrecadação dos impostos, menos roubalheira haverá e, pior do que está nossa nação, não tem como ficar. 
A cada dia que passa os belos discursos de compromissos da campanha eleitoral ficam mais difíceis de serem cumpridos. 
Teremos uma safra de governantes de vacas magras e muitos encerrarão suas carreiras políticas por vergonha de não cumprirem com o prometido. Será? 
A prefeitura cobra do governo do Estado, que cobra do governo federal, que cobra da “crise internacional”, pela caixa vazia dos cofres públicos. 
O país está em pleno arrocho fiscal e a corrupção não preocupa o Ministro da Justiça, porta voz oficial do governo federal.
Sem recursos financeiros e altas dívidas a pagar, os mais belos planos de desenvolvimento elaborados por bem pagos marqueteiros se perdem como uma nuvem diante de uma forte ventania, não deixando sequer rastros. 
Nestes momentos cruciais é que surgem os estadistas, olhando para frente para retirar o nosso país deste caos em que foi atirado. 
O que ouvimos é um interminável bate-boca, cada qual jogando a culpa no outro e penalizando o trabalhador responsável pelas nossas riquezas. 
A ressaca dos feriados é curada pelo pesadelo das nossas dificuldades sem soluções - entra governo sai governo. 
Então, que venham os feriadões!

25 de abr de 2015

Choro, melodia da alma carioca, de Valéria del Cueto

"Em meados do século XIX na capital do Império, surgiu uma forma  “chorosa” de interpretar as músicas da moda na Europa" conta  Valéria del Cueto​, na crônica "Choro, melodia da alma carioca", do SEM FIM...​
Choro, melodia da alma carioca
A alma carioca tem tradução musical. E não é o samba. O samba é o seu coração palpitante. A alma musical carioca é o Choro. Gênero musical urbano, popular e erudito, definitivamente incorporado ao “phisique-du-role” da Cidade Maravilhosa.
No ano das comemorações de 450 de seu nascimento, o  Rio de Janeiro ganha um presente há muito esperado. Sua Casa do Choro está inaugurada com tudo o que tem direito nesse megaferiado turbinado por aqui com o  Dia de São Jorge. 23 de abril também é o Dia Nacional do Choro em homenagem ao nascimento de seu maior representante, o genial Pixinguinha. Desde 2000 o projeto vem sendo desenvolvido pelo Instituto Casa do Choro, com a criação da Escola Portátil de Música, capitaneada por nomes como Luciana Rabello e Maurício Carrilho.
* http://wp.me/p2Eomp-O1 é um playlist do que falamos acima e muitos exemplos deliciosos
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com
 E3- ILUSTRADO - SABADO 25- 04-2015

Temeridade, por Gabriel Novis Neves


Temeridade
Ser torcedor do Botafogo de Futebol e Regatas do Rio de Janeiro é uma temeridade para os portadores de cardiopatias ou maiores de cinquenta anos de idade. 
Quando imaginava ter visto tudo em futebol, inclusive acompanhando o Brasil perder em seu território duas Copas do Mundo, a primeira com um público jamais alcançável em jogos de futebol (duzentos mil torcedores) e a segunda pelo inacreditável placar de 7x1, fui surpreendido por um jogo cuja definição só foi possível após interminável cobrança de pênaltis - em que os vinte de dois jogadores participaram para decidir o resultado final da partida em 9x8! 
Foram os minutos mais longos que me recordo já ter vivido. 
Mesmo sabendo que o importante no esporte é competir, um bom resultado é imprescindível à saúde emocional e física de um torcedor apaixonado. 
O clímax da emoção aconteceu quando o bom goleiro do Fluminense foi obrigado a cobrar o último pênalti da segunda série, ou prorrogação do seu time. 
Treinado para defender pênaltis, quis as regras do jogo que ele fosse a opção para marcar o gol da vitória ou o de mais uma prorrogação. 
Para sorte dos botafoguenses, ele ajeitou a bola na marca do pênalti e bateu um excelente tiro de meta, isolando a bola nas arquibancadas do Estádio Newton Santos! 
A vez agora era do nosso goleiro, que durante os noventa minutos regulamentares do jogo não conseguiu defender o pênalti batido pelo nosso adversário, causador da prorrogação para decisão por pênaltis.
Chutou a bola rasteira e com pouca força, muito bem colocada nas redes do adversário. Era o gol que classificava o time da Estrela Solitária para o jogo final do falido e desmoralizado campeonato carioca de futebol. 
Eleito o herói do jogo memorável, confessou que nunca havia treinado ou batido um pênalti na sua carreira profissional. 
Estava escrita mais uma dessas histórias que só acontecem ao Fogão.

24 de abr de 2015

O homem e a máquina, por Gabriel Novis Neves

O homem e a máquina 
O avanço extraordinário da tecnologia nos últimos anos me levou a escrever artigos dizendo que a máquina tinha, finalmente, vencido o homem. 
Com o desastre do avião alemão nos Alpes franceses e a divulgação dos resultados das primeiras investigações, mudei meu conceito. 
O homem venceu a máquina ao derrubar o mais pesado que o ar, e que voa com toda segurança apoiado na mais moderna tecnologia. 
Após o atentado terrorista de 11 de setembro contra as Torres Gêmeas em Nova York, os técnicos em segurança de voo blindaram a porta de acesso à cabine dos pilotos - ela só poderia abrir por dentro. 
Pelas informações até agora recebidas, o copiloto, em um momento de total insanidade mental, e aproveitando por minutos a saída do comandante da cabine da aeronave, fechou e travou a porta blindada e desligou o piloto automático. 
Com o mancho nas mãos embicou para baixo o Airbus A320 em direção às montanhas do território francês, não atendendo aos apelos do comandante para entrar na cabine de comando. 
Era o homem vencendo a tecnologia. 
Como explicar um ato em que cento e quarenta e nove passageiros e tripulação são cruelmente sacrificados? 
As vítimas - dezenas de crianças, estudantes, trabalhadores e idosos - tiveram suas vidas ceifadas por um ato que traumatizou o mundo. 
O desventurado jovem piloto de há muito trabalhava em “morte cerebral” sem que ninguém percebesse, aguardando o instante ideal para concretizar a sua morte física. 
Os instrumentos do avião não registraram nos momentos que antecederam ao choque com a montanha nenhum sinal que revelasse alterações das suas funções vitais, como distúrbios da respiração, pulso e pressão arterial. Tudo aconteceu em silêncio total. 
Nenhuma mensagem ou uma palavra sequer, afastando a hipótese de suicídio, que é sempre um ato solitário. 
Com certeza novas medidas de segurança serão adotadas nas máquinas voadoras, mas, o que necessitamos mesmo é de monitores para entenderem o nosso ainda indecifrável cérebro.

23 de abr de 2015

Mitômatos, por Gabriel Novis Neves

Mitômatos 
Assim são conhecidos os viciados em mentira, ou seja, quando esta se torna uma compulsão. 
É considerado um distúrbio de personalidade. Estatisticamente cem entre mil adultos apresentam essa deformação. 
Seus portadores criam sempre histórias mais ou menos verossímeis de modo que suas mentiras sejam, na maioria das vezes, críveis. 
A medicina ainda desconhece tratamento para esse tipo de comportamento e imagina-se que ele esteja ligado a alguma falha no sistema nervoso central. 
O grave é que no dia a dia algumas vezes nos deparamos com pessoas com essa patologia, às vezes até em altos cargos da vida pública e privada. 
Uma das características é que a mentira sempre lhes favorece. Embarcam fundo no mundo fantasioso por elas criado e progressivamente não mais distinguem o real da mentira. 
Pessoas com esse perfil, quando vinculadas ao mundo político, causam profundos malefícios à sociedade. 
Como são despidas de autocrítica, imaginam-se distribuindo um manancial de vivências espetaculares que julgam somente suas e absolutamente intangíveis para os outros simples mortais. 
Estão sempre prontos a se beneficiarem de tudo e de todos, por menores que sejam as benesses, e possuem grande poder de persuasão para os menos avisados. 
Insuflados pela sede de poder levam suas viagens fantasiosas a todo tipo de megalomania. 
O pior é que as pessoas por elas governadas, confusas, também tendem a entrar nesse clima de bravatas quixotescas antes de se tornarem anestesiadas. 
As diversas mídias, inseridas no mercado de consumo, facilmente manipuladas pelas razões óbvias, acabam contribuindo para a divulgação desse mundo onírico e mentiroso. 
A história tem nos mostrado o caos em que mergulharam e continuam mergulhando povos liderados por mitômanos e por outros tipos de personalidades psicóticas. 
Para nós médicos, verdadeiros desnudadores da alma humana, fundamental para o entendimento das diversas patologias, é bem mais fácil o reconhecimento desses pobres falsários da mente. 
Isso, a bem da verdade, para aqueles que ainda se dedicam a elaborar uma boa e longa anamnese, e a um importante relacionamento médico-paciente daí decorrente. 

22 de abr de 2015

Luto na cultura, por Gabriel Novis Neves

Num mesmo dia - 13 de abril de 2015 -- a cultura mundial perdeu dois de seus expoentes mais expressivos.

Um, no Uruguai, na figura do grande filósofo, poeta, escritor, documentarista, Eduardo Galeano. 

Outro, na Alemanha, Günter Grass, cujos livros tinham sempre um contexto político. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 1999 pelo seu livro “O Tambor”, de 1959 - o primeiro de uma trilogia que narra a história da ascensão do nazismo. 

Galeano, nos seus cinquenta anos de carreira, deixou inúmeras obras de vulto, tanto ficcional quanto factual. 

“As Veias Abertas da América Latina: Cinco Séculos de Pilhagem de um Continente”, livro datado de 1971, foi uma das obras mais polêmicas de Galeano. 

O livro descreve a submissão da América Latina e de suas riquezas ao colonialismo europeu no passado e, a partir do século XX, à Grã Bretanha e aos Estados Unidos. 

O atual presidente americano, Barack Obama, recebeu, em 2009, do então presidente da Venezuela, Hugo Chaves, uma cópia da obra, o que aumentou em muito a sua venda no mundo. 

As frases e pensamentos de Galeano ficaram famosos, sendo que, para mim, a definição de utopia é uma das mais inteligentes já registradas: “A utopia está no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos”. 

Caminho dez passos e o horizonte dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: “Para que eu não deixe de caminhar”. 

Outra de suas frases que muito me agrada: “O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa”. 

Acredita-se que tenha sido o que fez, não só com o seu corpo, mas também com sua cabeça, uma das mais privilegiadas deste século. 

Günter Grass, um dos mais importantes escritores da Alemanha, foi chamado de “consciência moral da esquerda da Alemanha pós-guerra”. 

Era considerado o porta voz literário de sua geração durante a época nazista e descreve-se a si mesmo como um devoto da iluminação num momento em que a razão estava ausente. 

Recentemente, tornou-se muito polêmico ao confessar ao mundo a sua participação, aos dezessete anos, na Waffen- SS, organização nazista da época. Isso é relatado no seu livro “Descascando Cebolas”, de caráter autobiográfico.

Neste livro, Günter Grass revela um sentimento de culpa e se justifica pela pouca idade quando da sua participação na guerra junto aos nazistas.

O mesmo sentimento aparece em uma frase no seu livro “O Tambor” - “não sou responsável pelas coisas que fiz quando criança” – personagem do garoto Oskar. 

“Maus Presságios” é outro livro que se revela autobiográfico e sua relação com o sentimento de culpa, lançado do Brasil em 1992. 

Em 2012 Grass publicou um panfleto com o título “O que deve ser dito”, onde apontava Israel como uma ameaça à paz mundial, pois alertava que o ocidente estava acomodado com relação ao programa nuclear daquele país. Foi considerado “persona non grata” em Israel. 

A literatura mundial está de luto. Calou-se a “voz crítica da América Latina”. Calou-se a “consciência crítica da Alemanha”.

20 de abr de 2015

Excesso, por Gabriel Novis Neves

Excesso
Os jornalistas políticos confessam que nunca foram tão bem nutridos de notícias como nesta fase de escândalos, incompetência e corrupção. 
O ridículo, que antigamente era motivo de zombaria, tornou-se a moeda do momento em nosso país. 
A estupidez atingiu os patamares mais altos da sua cotação, e o pior é que há seguidores dessa estranha seita política. 
No epicentro de tudo a tão esfarrapada desculpa de sempre: o culpado é sempre o outro diante da descoberta de um deslize de ética e das dificuldades administrativas. 
Tudo que sofremos neste momento de humilhação perante o mundo tem um culpado - o pobre Adão e sua companheira Eva. 
Foram eles os primeiros responsáveis pelas obras públicas inacabadas e superfaturadas, cobrança de impostos absurdos, salários aviltantes, desemprego em níveis preocupantes, sucateamento da educação, saúde, transporte e serviços essenciais, com a institucionalização da propina. 
Se não houver com urgência reformas no nosso sistema político, essa lengalenga virará doutrina de início de governo - dificuldades encontradas são responsabilidades do antecessor. 
Concluído o mandato constitucional tudo continuará como dantes. Pena eu tenho de Thomé de Souza, primeiro Governador Geral do Brasil e que, portanto, não teve antecessor para criticar. 
Nossos governantes são pessoas inteligentes, com estudos formais ou não, experientes em seus negócios privados, conhecedores do mundo moderno, mas, ao assumirem o governo jogam a culpa das dificuldades sempre no seu antecessor. 
Experiência para eles é igual farol de automóvel virado para trás – só ilumina o passado, no dizer do escritor e médico Pedro Nava. 
Vamos construir do caos uma nova sociedade e deixar como legado a nossa sofrida e enganada população. 
Existem bons exemplos a serem seguidos, e isso não é demérito para ninguém, muito pelo contrário. 
Nossa gente não suporta mais autópsias ao passado! 
Queremos um futuro, e menos notícias negativas!

19 de abr de 2015

Passado, por Gabriel Novis Neves

Passado 
Por indicação de um amigo “descobri” um canal de televisão, o “Arte1”. 
Confesso que após um mês de assídua audiência fiquei viciado com a programação, extremamente sedutora e bela. 
Uma boa opção de lazer! Durante horas seguidas fico assistindo aos seus espetáculos, de excelente nível cultural. 
Posso afirmar que na ocasião da “descoberta” do canal, tomei uma overdose de filmes, documentários e entrevistas com personalidades nacionais e internacionais. 
Chamou a minha atenção que o assunto sempre se referia ao passado de pessoas vivas ou falecidas recentemente. 
A Globonews exibiu também um filme sobre a vida de Simonal, com noventa minutos de duração, narrando sua ascensão profissional. Chegou a ser mais popular que Roberto Carlos e Pelé no início dos anos setenta. 
Depois, a sua queda, ostracismo e morte prematura aos sessenta e dois anos de idade. 
Fico a indagar o motivo de tanta necessidade da exaltação ao passado. 
Saudades da mocidade perdida? 
Creio que a faixa de assinantes que usufruem do encantamento desses canais de televisão é composta por pessoas mais idosas que, com certeza, ao entrarem no mundo apresentado pelo visual gratificante de um passado distante, sentem-se jovens. 
A ilusão da recuperação da época em que os problemas eram mínimos e fáceis de serem resolvidos ficam evidentes. 
Na velhice os problemas são, geralmente, mais numerosos, e suas soluções mais penosas de serem equacionadas. 
Embora apreciando essa regressão, os idosos, ainda assim, sofrem com esses shows biográficos. 
É o momento em que nos certificamos das fragilidades humanas, incompreensões, linchamentos morais, pré-julgamentos e condenações apressadas, nos dando a certeza que o homem é realmente um ser inviável. 
Nessas condições, o melhor é voltar ao passado. 

18 de abr de 2015

Valoe Intrínseco, por Valéria del Cueto

"Introjetado do sentimento geral de ser humano o  alienígena enfileira pensamentos e reflexões, desfiando perplexidades"
Valores intrinsecos
Valor instrínseco
“A vida está perdendo o sentido, no sentido que todos pensam nela. Não há ficção capaz de superar a incrível realidade que vivemos.” (Pluct Plact, da TerraBrasilis). Assim mesmo, totalmente introjetado do sentimento geral de ser humano, nosso alienígena enfileira pensamentos e reflexões desfilando perplexidades por sua tela intergaláctica. Segundo ele, “Não existem padrões, cada situação pode gerar uma nova interpretação dos parâmetros, com infinitas possibilidades distintas”. “Quase nada é o que parece ser e, daqui a pouco, perde seu significado correlato adquirindo uma conotação diversa e surpreendente”.
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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM... delcueto.wordpress.com
E3- ILUSTRADO - SABADO 18- 04-2015
Edição Enock Cavalcanti


Diagramação Nei Ferraz Melo 

Maxixe, por Gabriel Novis Neves

Maxixe

Vivo o presente, pois o futuro é um prêmio, mas não esqueço o imenso legado que é o meu passado.
Pincei momentos gostosos daquilo que passou, já que no presente a cada dia recebemos uma dose de veneno das nossas autoridades maiores e, talvez, sentindo esse futuro incerto
Lembrei-me da 1ª feira livre na minha pequena cidade. O dia era seis de janeiro, de um ano do início da década de quarenta.
Chovia muito neste dia. A feira era uma grande novidade para nós. Foi montada na Avenida Generoso Ponce.
Durante os dias que precederam a inauguração do comércio na rua, só se ouvia falar na data da inauguração.
O esperado dia chegou e perguntei à minha mãe se ela não iria ao evento. A resposta foi surpreendente: - “Eu não posso deixar a casa e as crianças, mas gostaria que você fosse fazer as compras”.
Recebi como um troféu o convite e a pequena cesta feita de fibras de folhas de palmeiras para trazer os legumes e frutas comprados.
Não me recordo da quantia de réis (moeda da época) que ela me deu para as despesas.
Debaixo do guarda-chuva deixei a minha casa e em poucos minutos cheguei ao lugar festivo.
Nunca tinha visto aquelas barracas cheias de verduras, legumes, frutas, rapadura, doce de leite, farinha de mandioca, panela de barro, pau de guaraná para ser ralado, peixe do Rio Cuiabá, carne seca e até remédios da flora.
Fiquei totalmente perdido e atordoado diante de tanta gente alegre e entusiasmada, comprando um pouco de tudo que encontrava em exposição.
Impiedosamente, a chuva continuava o tempo todo e eu não conseguia comprar nada.
Quase voltando para casa, satisfeito por participar de uma conquista própria de cidade grande, resolvi adquirir algo para colocar na cesta vazia. Seria humilhante diante de tantas ofertas “passar em brancas nuvens” sem nada escolhido.
Uma barraca estava cheia de maxixe, um legume verde espinhoso muito apreciado por aqui quando feito com carne picadinha e arroz.
Enchi a cesta, pois o preço era ridiculamente barato. Ao retornar para casa minha mãe foi auditar as minhas compras e disse que tinha cumprido com distinção o meu dever, após conferir o troco do dinheiro disponibilizado para a missão.
No entanto, fez uma delicada pergunta, que guardo até hoje como uma relíquia da minha formação: - “Por que só trouxe maxixe?”.
“Era o produto mais barato da feira, mamãe”, respondi educadamente.
Ela somente sorriu com condescendência amorosa diante da minha resposta.
Mas, aquele sorriso me fez reconhecer a minha total inabilidade e incompetência para compras seletivas.
Aquela compra longínqua do maxixe me impede até hoje de frequentar shoppings e supermercados.