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Os ventos nos levarão
Texto, fotos e vídeos de Valéria del Cueto
Fiz de um tudo que podia para tentar retornar a um velho hábito. Em busca de uma reconexão com o antigo costume de escrever as crônicas nas areias da praia, me preparei para rumar em direção ao Arpoador numa sexta-feira à tarde.
No dia anterior fiz um reconhecimento no terreno sem o equipamento necessário para desenrolar o texto. A saber: o caderninho e a caneta.
Era uma tarde de quinta-feira linda! Céu azul e águas claras. Cenário perfeito para bater perna entre Ipanema, o Arpoador e a Praia do Diabo. Um dia ideal para “farmar aura”! Me adiantei porque, primeiro, queria matar as saudades. Trocar o murmúrio regular do rio que corre no meio do mundo que habito no pé da serra pelo barulho inconstante e desritmado do mar, sem arrependimento pela ausência do material literário.
Para escrevinhar, queria o ambiente perfeito que só uma sexta-feira proporciona. Sabe aquela vibe de véspera de final de semana? O compromisso inexistente depois de uma caminhada pela beira do mar molhando os pés com as marolas que invadem a areia?
O ideal para refletir o quase pôr do sol antes de mergulhar nas linhas inexploradas das páginas e formas do caderninho que renderão mais uma crônica do Sem Fim...
Antes de chegar ao destino e atingir meus objetivos para abrir o final de semana, uma bateria de exames de check-up anual me aguardava no período da manhã. Obstáculo superado entre um aparelho e outro, corri para casa em busca dos apetrechos da missão literária e parti para o destino tão almejado.
Como estava tudo certo e nada decidido, faltou combinar com o… clima. O tempo havia virado!
Tudo o que era azul anil estava encoberto por uma bruma fina que foi se adensando e virando uma barreira de nuvens rápidas e pesadas, embaladas por uma ventania incessante.
Daquelas que levantam as ondulações no espelho d'água, crispam as ondas e formam carneirinhos de espuma.
Se o mar estava pra peixe, como veremos a seguir, não era propício para banhistas e surfistas. Apesar de mexido, as ondas ainda não haviam subido.
Voltei lutando contra o vento ao mesmo lugar do dia anterior. O cenário era totalmente diferente.
Para começar, não havia nin-guém no largo do Millôr. Só eu e um ambulante com seu isopor, sem nenhuma chance de fazer sequer uma venda por falta de clientela.
Nas pernas, a areia chicoteava pinicando a cada rajada de vento, invadindo as dobras do casaco corta-vento, fustigando as pernas protegidas até os joelhos por uma bermuda de malha e se ajuntando dentro do tênis.
O visual era lindo, com as nuvens correndo rápido sobre o contorno do morro Dois Irmãos. Muitos mergulhões e gaivotas lutavam contra as correntes de ar que os impedia de mirar os peixes do cardume que tentava dobrar a ponta do Arpoador.
Um verdadeiro espetáculo da natureza!
As chances de realizar meu desejo de escrever o texto no banco de concreto embaixo do poste do refletor que ilumina as águas para os surfistas em noites mais amenas eram nulas! Não tinha agasalho que segurasse a friaca das lufadas de areia temperada pelos respingos de maresia grudenta.
Clique no LINK para acessar o ensaio fotográfico no FLICKRAguentei as intempéries esperando que um respiro no corre das nuvens deixasse passar um raio solar. Que ele fizesse um contorno na massa polar que se aproximava trazendo o swell (que faria a alegria dos surfistas no campeonato que aconteceu no final de semana). A crônica? Ficou para depois.
Depois que a Argentina ganhou da heroica seleção de Cabo Verde naquela mesma noite. Depois que o Brasil foi vergonhosamente eliminado pela Noruega. Depois que a FIFA caísse de joelhos, revertendo a expulsão de Balogun, o jogador da equipe americana, solenemente ignorada pela Bélgica e, que nojo! Depois que o Egito fosse garfado e saísse da competição após fazer a campeã mundial, a Argentina, passar um tremendo perrengue antes de garantir sua classificação às quartas de final. Essa mesma, só com campeões!
Com os Estados Unidos fora da competição, para indignação mundial, foi quebrado o cessar-fogo no Estreito de Ormuz. A Groenlândia e a Faixa de Gaza estão novamente sob ameaças iminentes. E nós? Voltamos a ser alvo de quem, sabemos, não tem espírito esportivo nem é capaz de respeitar os direitos básicos alheios.
É vida que segue ao sabor dos ventos que não sabemos onde nos levarão. Assim como esta crônica...
PS: Pluct Plact, o extraterrestre estava certíssimo. Faz tempo que os seres de outros planetas circulam por aqui.
Mais vídeos na PLAYLIST do canal @delcueto no YOUTUBE
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da série “Arpoador” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com


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