Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA

17 de jul de 2019

Nepotismo natural, crônica de Valéria del Cueto

Nepotismo natural

Texto e foto de Valéria del Cueto

Hoje somos só nós. Vocês e eu. Caneta, caderninho e a que aqui escreve. Três por uma, a crônica.
Numa ponta, pra variar. Na sexta a tarde, pra firmar. Sem fantasia.

A caminho subi a rua do Posto 6 em direção ao Arpoador já pensando no conteúdo da prosa. Não é igual a ir à praia na Ponta do Leme, minha pedra original. Lá conhecia todo mundo e alcançar o paraíso era uma travessia amorosa.

Porteiros, gari, guardador/lavador de carro, o Coutinho banco/boteco, salvador nas horas perdidas, Marquinhos da papelaria.

Uma fiscalizada nas frutas no seo Avelino, com direito a exame de qualidade da partida mais recente das melhores (e sempre desejadas) mariolas, meu vício. Aquela passada pela banca de jornal do Santo pra conferir as capas dos jornais e o suco de banana com abacaxi com pão na chapa e polenguinho, do Romário ou do Malaquias, na padaria Duque de Caxias.

Essa social sempre fazia que só pensasse na crônica quando acabava de acampar na areia antes de me concentrar nos meus esportes favoritos: o surf nas ondas do canto da pedra e a pelada da garotada na beira do mar. Com traves do gol de coco ou havaianas.

Aqui no Posto 6 a levada é diferente. Mais papo reto. Não dá pra comparar a intimidade e os afetos de uma vida com essa paisagem. Lá era pulo. Aqui é ladeira. Acima. Pra chegar em Ipanema desfilo de ponta a ponta da Bulhões, cruzando do pé do Morro do Pavão até a Pedra do Arpoador.

Claro que já rolam obas e olás. Mas aquela animação não vira por essas bandas. A exceção (como não poderia deixar de ser) é com um velho amigo dos tempos de adolescente. Porteiro do prédio quando morei aqui, hoje bate ponto num edifício vizinho. Com ele a prosa rende. “Hoje está uma tranquilidade no entorno”, informa. “O vice-presidente Mourão está no pedaço com tudo que tem direito.”

Foi pensando neles, os direitos, que num silêncio pensativo subi o restante da ladeira. Nos direitos do general que virou vice e do porteiro que está perdendo os seus nas canetadas ensandecidas dos poderes constituídos de Brasília nessa reforma que, bradam, será para beneficiar os mais pobres.

Todos empurrados à escravidão contemporânea, a que não depende de raça e de cor. Grilhões financeiros e econômicos em que só falta já nascermos no negativo.

Claro que isso é uma projeção catastrófica, dirão aqueles que, com chicotes nas mãos, ainda encontram um jeito de aplaudirem o trabalho infantil.  Em breve seremos embalados pelos sons dos estalos dos rebenques no lombo do gado obediente.

Mas não foi para falar disso que cheguei até aqui. A vida do porteiro amigo ainda é das melhores. Tem emprego, é bom no que faz, ajuda os amigos e, sempre que pode, chuta o balde e vai pescar na praia.

Fui interrompida no riscado por Vilmar, o irmão do mar.  Perguntou o que eu estava escrevendo depois de me pedir um troco pra comprar um marmitex. Vilmar está recolhendo latinhas na praia. É desempregado, tem fome e um sorriso enorme.

Está pior, bem pior que o porteiro pescador. Mas se acha um privilegiado. Me explicou que só ele na família de vários irmãos tem o mar no nome, por isso se sente “irmão dessa lindeza”. Irmão do mar, Vilmar só almeja (me contou) outro mar. O marmitex de sexta.

Na volta pra casa há um burburinho no final da descida da rua. O vice com seu aparato policial, comitiva, coisa e tal, mais um soldo de R$ 19.000,00 acaba de chegar em seu lar!

Que não se compara ao do esfomeado Vilmar. Que pode não ter nada! Mas é irmão. E disso abusa, do mar...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM FIM...  delcueto.wordpress.com


Studio na Colab55

11 de jul de 2019

Matrizes, show da Mangueira no barracão da Cidade do Samba



Matrizes é o espetáculo concebido por Leandro Vieira e montado no barracão da Estação Primeira da Mangueira na Cidade do Samba.

A estréia do show dirigido pelo carnavalesco duas vezes campeão na verde e rosa foi na quinta-feira, 04 de julho.

Clique AQUI ou na foto para acessar o álbum Matrizes no barracão da Mangueira do Flickr.



A cantora Alcione, a primeira convidada da temporada. O elenco é composto por 35 artistas, entre músicos, passistas, baianas e dançarinos. A bateria da Mangueira também participa, é claro. Na próxima quinta-feira o apresentação será de Nelson Sargento, presidente de honra da escola.


Relembrando as vertentes originais do samba carioca como o jongo, caxambu e o choro, o roteiro passeia por clássicos do samba e explora obras de compositores mangueirenses. As apresentações acontecerão às quintas dos meses de julho e agosto de 2019. Informações no site da Mangueira.

Abaixo, em vídeo, um pouco da pegada da bateria verde e rosa no espetáculo. Sobe o som…



Ensaio fotográfico e registros no canal del Cueto, no youtube de (C)2019 Valéria del Cueto, all rights reserved
@no_rumo do Sem Fim… delcueto.wordpress.com
@delcueto para CarnevaleRio.com

Essa iniciativa de ocupação do espaço do barracão da Mangueira na Cidade do Samba foi lançada juntamente com a campanha MANGUEIRA 2019 NO MUSEU NACIONAL, de financiamento coletivo na plataforma Catarse para a realização de uma exposição.
Curta nossa página no Facebook e faça sua inscrição no Canal del Cueto no Youtube. Desde 2008 registrando momentos do carnaval carioca.


Aqui tem mais pra você:
Já seguiu “No rumo do Sem Fim”?
Experimenta! Você encontrará o conteúdo produzido por Valéria del Cueto e também links para objetos e desejos produzidos no Studio@delcueto!

Ideias e design disponíveis nas plataformas:
Colab55
Redbubble

Siga os instagrans
@valeriadelcueto
@delcueto.studio

Studio na Colab55

8 de jul de 2019

È luxo. E só... - crônica de Valéria del Cueto

É luxo. Só...

Texto e foto de Valéria del Cueto

Que maré, querida cronista, que maré. Estão tirando as sacolas plásticas dos supermercados para tentar diminuir o impacto do lixo nos oceanos. Elas e outros objetos não mencionados estão sufocando e ocupando espaço de peixes e afins nas vastidões marítimas.

Aí... desculpe a introdução. Tinha jurado só enviar notícias boas pela fresta de lua da janela de sua cela na reclusão voluntária do outro lado do túnel, amiga querida.

O que tenho a dizer é que, das piores, essa proibição legal fluminense (vale aqui no Rio de Janeiro) é das melhores. Ou seja: é daí para pior.

Não se aflija. Não pretendo gastar nossos momentos periódicos juntos falando das atrocidades do dia a dia aqui de fora.

Estou buscando outros caminhos. Os que alegram nossa existência. Aviso logo: é preciso ir para dentro de si em busca da satisfação que nos resume e nos resta: a interior.

É isso mesmo. Tirei 15 minutos do meu tempo na terra por dia para fazer a meditação da abundância de Deepak Chopra. Dura 21 dias e já cheguei ao final. O que a gente não faz para não contaminar seu quadrado? Hoje é dia de procurar o luxo.

Você sabe, cara cronista, cada um tem o seu. Falar com você, encontrar um novo ângulo para registrar numa das pontas que você me apresentou de cara, na minha atabalhoada chegada no planeta. Lembra?

O sol tocando minha simbiótica pele terráquea enquanto escrevo para você. A imagem do surfista desafiando o mar que se projeta esfomeado em direção a mureta, diminuindo a faixa de areia e o espaço para os privilegiados que podem frequentar o espaço em plena sexta-feira.

Deixei para contar agora porque esse luxuoso detalhe sempre fez parte das suas narrativas da Ponta do Leme: a chance de estar no paraíso nas tardes do último dia de trabalho da semana. Cada um com seu luxo.

Inclusive o de rir do “luxo” alheio. Com todo o respeito, é claro... Quando for merecido, ressalte-se.
E isso anda fácil para quem acompanha a movimentação das redes sociais, o novo aboio que leva e traz poucas verdades, mas propaga mentiras inacreditáveis (no sentido exato da palavra).

Esse movimento desperta um efeito manada impressionante. Capaz de conduzir, para “todos” os dois lados paixões e opiniões. Nada se verifica, tudo se reproduz. Num efeito tsunami que vai e vem.
Sei que pelo tempo de seu isolamento não dá para dimensionar o que estou narrando. Melhor assim. Esse é um luxo que poucos têm nesse momento.

Aliás, esqueci de mencionar, mas sei que é importante para você, cronista aluada. Estamos saindo de um eclipse solar total! O único desse ano. Diz a lenda que ele trará mudanças.

E aí vai mais um luxo: o de ter esperanças. E são elas que nos permitem aguardar a abundância no futuro. Parece incoerente? Pois não é. Já que esse objetivo está dentro de cada um. E no momento, essa é a joia que nos cabe lapidar. É a ela que ainda temos acesso. Porque não depende de ninguém, além de nós, alcançá-la e nela trabalhar.

Cronista, não é fácil para quem é bombardeado o tempo todo por tantas possibilidades e energias. A maioria lamentavelmente negativas.

Elas funcionam como o imã que atrai minha nave, impedindo minha tão desejada partida. E, já que não posso viajar para fora, o faço para dentro de mim mesmo.

Do seu, aparentemente mais livre, Pluct, Plact.

PS: Mas será?

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com


Studio na Colab55

3 de jul de 2019

Glória ao Samba e a Mangueira, fotos e vídeos por Valéria del Cueto



Glória ao Samba canta Mangueira – A Semente do Samba e seus Frutos

Dessa vez foi num sábado, 29 de junho de 2019. O teatro novamente o Rival. A platéia diferente, já que ali estava a pesquisa sobre os primórdios da verde e rosa e as histórias dos sambas do Morro da Mangueira.

Os quinze blocos do show do coletivo Glória ao Samba passearam pela memória musical da escola e dos compositores que fizeram o nome da agremiação.

A abertura retrocedeu no tempo, para recordar Mano Elói e o primeiro samba tocado no morro, “O Padre diz Miserê“, “Rosa Meu Bem“, de Antonico (aquele), o primeiro samba de Cartola, ” Chega de Deamanda“, e de Carlos Cachaça, ” Não me deixaste ir ao samba“.

Nos blocos subsequentes foram apresentadas composições inéditas, como a primeira parceria de Cartola com Carlos Cachaça, “Pudesse meu ideal“, uma parceria da dupla e Nuno Veloso, “Levanta, Gigante“, e, de Cartola e Brogogério, “Perdão, sr. Presidente

O tempero do show certamente foi a apresentação das pastoras, mostrando seu requebrado.
As histórias, saborosas, faziam a ligação entre as músicas, No palco, os muitos músicos do coletivo e seus convidados mangueirenses. O compositor Hélio Turco, as pastoras Gueisinha, Zenith e Soninha da Pedra representavam a verde e rosa. Também teve a participação de Francineth, parceira do Glória ao Samba em outros espetáculos.


O trabalho do Glória ao Samba é de excelência musical. A pesquisa cuidadosa e apaixonada. Mas há mais.

A sensação que tive nos dois espetáculos registrados aqui no site carnavalerio.com a homenagem à Portela e, agora, à Mangueira, é a capacidade de, não apenas surpreender as novas gerações que são apresentadas a uma produção musical inspirada e ainda atual, mas de trazer de volta o brilho no olhar de gente que, pelos caminhos dos roteiros dos shows, tem a chance de reviver versos e melodias que, sem o grupo, estariam perdidas no fundo da memória.

Elas são resgatadas por quem tem o privilégio de assistir aos espetáculos. Não tem preço ser testemunha e interagir nesses momentos, misturada a platéia. Coisa que os músicos do Glória ao Samba podem até perceber. Do palco…

Clique AQUI ou na foto para acessar o álbum Glória ao Samba e a Mangueira do Flickr.

Ensaio fotográfico e registros no canal del Cueto, no youtube de (C)2019 Valéria del Cueto, all rights reserved
@no_rumo do Sem Fim… delcueto.wordpress.com
@delcueto para CarnevaleRio.com
Curta nossa página no Facebook e faça sua inscrição no Canal del Cueto no Youtube, desde 2008 registrando momentos do carnaval carioca.

Aqui tem mais pra você:

“No rumo do Sem Fim” você encontra o conteúdo produzido por Valéria del Cueto e também links para objetos e desejos produzidos no Studio@delcueto!

Sabe o que é #photodesign? Ideias  disponíveis nas plataformas:
Colab55
Redbubble

Já se inscreveu no canal delcueto no youtube? Corra!

Siga os instagrans
@valeriadelcueto
@delcueto.studio

Studio na Colab55

12 de jun de 2019

Quem se habilita? - crônica de Valéria del Cueto

Quem se habilita?

Texto e foto de Valéria del Cueto

Procurei no baú de identidades quem cuidaria do texto dessa semana. Nin-guém se habilitou.

Pluct, Plact, o extraterrestre, está levitando por aí quase torrando os circuitos de seus sofisticados equipamentos inserindo as últimas informações da Vaza-Jato.

Na floresta, o rolo é tamanho que o espaço da Fábula Fabulosa não daria nem para começar a contar o alarido que anda vindo da bandas da Flotropi.

A contragosto sobrou para a cronista desenrolar o texto hoje. Nada de fantasia. Vamos à realidade. Aqui, na Ponta do Arpoador.

E é aí que entra o conceito do “riscado” no caderninho hoje. Numa determinada medida, cada um pode escolher a sua (ir)realidade. Quer ver? Quer dizer, ler?

Hoje é quase fim de outono. Depois de dias cinzentos e muitas chuvas. Aquelas que caem exatamente quando você largou o trabalho (que está pegado), se arrumou e correu para tentar dar uma volta. Mas não consegue passar da portaria do edifício para a marquise dois prédios ao lado, de tanta água. Diluviana.

Eis que abro a janela e dou de cara com um céu azul cintilante! É claro que justo no dia em que tudo acontece no longo percurso das tarefas profissionais. Chuta daqui, dribla dali e aparece a chance de uma pernada até o mar.

Quero ver quem resiste. Eu não. E aqui estou. Pensando nos amigos que gostaria estivessem aqui comigo. Sabe por que? Porque o dia está clássico!

A saber: venta. Mas o sol está radioso. Tem ressaca, mas o mar está para surfistas!

São eles que quebram o fluir natural das ondas que agora, quase quatro horas, já recebem o contra luz dos raios de sol. Nessa época do ano só mais um pouco e ele se esconde atrás dos prédios, bem à direita da paisagem.

Para escrever aqui no pé da Pedra do Arpoador, o entorno é, como sempre, surpreendente.

Uma equipe fotografa um modelo encostado no poste grafitado que compõe a paisagem. Colorido, ele sustenta os holofotes gigantes que miram o mar para as manobras dos surfistas noturnos que frequentam o point. O fotógrafo orienta as caras e bocas do retratado para vender sapatos e tênis.

Do outro lado do banco um banhista entoa um mantra vindo lá do fundo do peito e medita fazendo treinamento vocal em alto e bom som.

Tudo isso não é suficiente, apesar de interferir, no rugido espetacular do mar que já esteve em fúria, mas continua resmungão.

Digo que esse não é o auge da gritaria marítima por saber que, se agora está tudo assim, sacolejante, já esteve pior quando a maré subia e atingia seu pico, horas atrás. Agora, está miando e assim continuará, até virar novamente.

Amanhã (me prometo) chegarei mais o cedo que puder para aproveitar ainda mais as piruetas e os voos dos surfistas. Perco na luz que não estará tão baixa. Recupero com as manobras acrobáticas mais ousadas.

Agora, justo quando chego ao fim do espaço definido para o tamanho da crônica, o sol é escondido por uma nuvem gigante.

Com ela volto ao início do fio. Aprendi a lidar com a vida para compor a realidade que me cabe e, com o fim da luz, me despeço.

Vou ali, brincar de fantasia. Nela, não há limites. Nem tempo como o tempo que vivemos. Ruim, tão ruim...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55