Nuvem passageira
Texto e foto de Valéria del Cueto
Estou igual as nuvens que costumam viajar pelo céu.
Uma hora deixo o sol entrar e aquecer a paisagem no meio do mundo em que me encontro entre uma chuvarada e outra das águas de março. Logo em seguida escondo a luz solar. O que, na pior e mais frequente das hipóteses, ativa a ação do inclemente e coçante do mosquital.
Os danados só dão folga quando o sol brilha num céu de brigadeiro. Estão animadíssimos com esses tempos úmidos de tantos temporais.
Nada a reclamar. Nem de minha parte, nem do lado da terra que andava esturricada e sedenta. Tudo cresce, a natureza explode e transforma a paisagem da Mata Atlântica que me cerca.
Se me equiparo às nuvens, sei que não mando em meu formato ou na velocidade que se alteram nos caminhos que percorro quando elas incrementam a paisagem natural como adereços da alegoria celestial.
Também não comando minhas qualidades e defeitos. Sou guiada por outros fatores. Pensando bem, por vários! Inclusive alguns, como contei no último texto “Ainda é cedo”, que podem me paralisar.
Hoje, o objetivo é sugerir uma forma de fugir desse colapso físico e mental, essa exaustão...
Ela que me deixou, inclusive, sem a menor vontade de fazer o que mais desejo de todo o coração: editar as fotos do carnaval 2026.
O conselho inicial é não forçar a barra. Tentar se dedicar, quando seu corpo pedir, a primeiro, fazer o mínimo.
Num dia qualquer acordar e escolher uma pequena tarefa para recomeçar a vida. Esqueça aquela enorme lista de pendências e objetivos pendurados na sua mente cansada.
Concentre-se, por exemplo, em retirar as ervas daninhas de um canto, só um cantinho, do jardim. E comemore a pequena vitória conquistada sem desviar o olhar para o latifúndio restante necessitando de atenção.
Fique feliz e se empenhe com afinco na produção super fácil de batatas rústicas do seu vasto(?) repertório culinário.
Afinal, foi o prato que abriu o apetite depois de semanas apenas esquentando as delícias produzidas pela Neuza e trazidas para consumo no pé da serra.
Se der vontade de passar aspirador (mesmo que seja véspera do dia da vinda da faxineira), mete bronca. Esconda seus pensamentos sob o ruído invasivo do motor do aparelho.
Ou... Se dê tempo para se reconectar com os sons da natureza como o das águas correndo entre as pedras do rio, as conversas dos passarinhos no final da tarde, e o ciciar das cigarras anunciando dias de sol. Procure vagalumes na escuridão!
Repito: não se cobre(muito) ou tente fazer tudo de uma vez só. Um dia, é a vontade de escrever que volta. Pode ser que duas semanas depois, prazo regulamentar entre as crônicas, ela permaneça.
De vez em quando passe pelo seu objeto final de desejo. No caso, as milhares de fotos esperando para serem editadas. Se não der liga, continue em frente. Vá assistir a uma série tcheca no streaming!
Não esqueça. Nunca perca a fé em retornar à sua escolha de difícil finalização. É o preço por optar por não usar flash, levantar o ISO e subir a velocidade na captação das imagens.
Tudo é empecilho. São tantas as dúvidas sobre a ordem de edição. A prioridade são as baterias?
O Lukumi da escola de samba Paraíso do Tuiuti ganha o primeiro lugar da fila de prioridades. A responsabilidade é do Pixulé e sua incrível interpretação do samba enredo.
“Derruba o muro, quem sabe asfaltar. Caminhos abertos nas mãos do Ifá. Que o mundo entenda o Ebó vence a dor sentado à esteira de um Babalaô”. É na mensagem explícita de Luiz Antônio Simas, Cláudio Russo e Gustavo Clarão, os autores da obra, que me apego.
Aproveito, nuvem que sou, os ventos me levarem. Sempre indo. Ou sumindo como no caso da imagem que ilustra esse texto. Na hora do registro, cadê elas? Onde fomos parar? Clareou, ou melhor, azulou geral!
Depois ressurgimos. Uns dias mais rápidas, outros mais lentas. Até que, por força dos deuses, viremos toró de chuvas ou de registros editados. Que encham de imagens o universo de quem capturei os movimentos no desfile de carnaval de 2026.
No momento, devagarzinho, informo mais uma conquista. Na edição saí da concentração do Tuiuti do lado dos Correios e consegui avançar até o Setor 1 da Marquês de Sapucaí junto a bateria Super Som de mestre Marcão.
Quebrei, sim, a maldição do colapso imagético que me dominava. Mas, confesso, foi difícil...
*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Crônica da séries “Não sei onde enquadrar” e “É carnaval” do SEM FIM... delcueto.wordpress.com
































