Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA

12 de jun de 2019

Quem se habilita? - crônica de Valéria del Cueto

Quem se habilita?

Texto e foto de Valéria del Cueto

Procurei no baú de identidades quem cuidaria do texto dessa semana. Nin-guém se habilitou.

Pluct, Plact, o extraterrestre, está levitando por aí quase torrando os circuitos de seus sofisticados equipamentos inserindo as últimas informações da Vaza-Jato.

Na floresta, o rolo é tamanho que o espaço da Fábula Fabulosa não daria nem para começar a contar o alarido que anda vindo da bandas da Flotropi.

A contragosto sobrou para a cronista desenrolar o texto hoje. Nada de fantasia. Vamos à realidade. Aqui, na Ponta do Arpoador.

E é aí que entra o conceito do “riscado” no caderninho hoje. Numa determinada medida, cada um pode escolher a sua (ir)realidade. Quer ver? Quer dizer, ler?

Hoje é quase fim de outono. Depois de dias cinzentos e muitas chuvas. Aquelas que caem exatamente quando você largou o trabalho (que está pegado), se arrumou e correu para tentar dar uma volta. Mas não consegue passar da portaria do edifício para a marquise dois prédios ao lado, de tanta água. Diluviana.

Eis que abro a janela e dou de cara com um céu azul cintilante! É claro que justo no dia em que tudo acontece no longo percurso das tarefas profissionais. Chuta daqui, dribla dali e aparece a chance de uma pernada até o mar.

Quero ver quem resiste. Eu não. E aqui estou. Pensando nos amigos que gostaria estivessem aqui comigo. Sabe por que? Porque o dia está clássico!

A saber: venta. Mas o sol está radioso. Tem ressaca, mas o mar está para surfistas!

São eles que quebram o fluir natural das ondas que agora, quase quatro horas, já recebem o contra luz dos raios de sol. Nessa época do ano só mais um pouco e ele se esconde atrás dos prédios, bem à direita da paisagem.

Para escrever aqui no pé da Pedra do Arpoador, o entorno é, como sempre, surpreendente.

Uma equipe fotografa um modelo encostado no poste grafitado que compõe a paisagem. Colorido, ele sustenta os holofotes gigantes que miram o mar para as manobras dos surfistas noturnos que frequentam o point. O fotógrafo orienta as caras e bocas do retratado para vender sapatos e tênis.

Do outro lado do banco um banhista entoa um mantra vindo lá do fundo do peito e medita fazendo treinamento vocal em alto e bom som.

Tudo isso não é suficiente, apesar de interferir, no rugido espetacular do mar que já esteve em fúria, mas continua resmungão.

Digo que esse não é o auge da gritaria marítima por saber que, se agora está tudo assim, sacolejante, já esteve pior quando a maré subia e atingia seu pico, horas atrás. Agora, está miando e assim continuará, até virar novamente.

Amanhã (me prometo) chegarei mais o cedo que puder para aproveitar ainda mais as piruetas e os voos dos surfistas. Perco na luz que não estará tão baixa. Recupero com as manobras acrobáticas mais ousadas.

Agora, justo quando chego ao fim do espaço definido para o tamanho da crônica, o sol é escondido por uma nuvem gigante.

Com ela volto ao início do fio. Aprendi a lidar com a vida para compor a realidade que me cabe e, com o fim da luz, me despeço.

Vou ali, brincar de fantasia. Nela, não há limites. Nem tempo como o tempo que vivemos. Ruim, tão ruim...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

10 de jun de 2019

SONETO INGLÊS FORA DE HORA - Luiz de Miranda

A treva é leve
o amor é breve
a esperança apenas
a mão de uma criança
a justiça não chega
o juiz é cego
o advogado é férias
a paixão é falha
o adeus é palha
a morte é ordem
a fúria é seca
o cadáver é perda
a glória é quimera
o suor é primavera



Studio na Colab55

31 de mai de 2019

(Ainda) na luz - crônica de Valéria del Cueto

(Ainda) na luz

Texto e foto de Valéria del Cueto

Vendo a vida da Ponta do Arpoador é que me inspiro para mais uma conexão com você, cara cronista enclausurada.

Tudo é prata nesse mar de ressaca dominical que, diz a moça do tempo que quase sempre erra, mas dessa vez acertou, se estende por grande parte do litoral sul e sudeste do Brasil.

Tem chovido muito por aqui e mesmo com o céu cheio de nuvens, o que explica a prata predominante na palheta de cores que anunciei acima, muita gente aproveitou para lagartear ao sol que recorta e é fonte de luz para rebater as más energias e ampliar as positivas.

Tá todo mundo precisando e deveria haver mais esforço na busca de harmonia.

Mas, cá pra nós, amiga voluntariamente encarcerada do outro lado do túnel, o que tenho encontrado por aqui é justamente o oposto.

Os sensores de meu sofisticado equipamento interestelar energético estão em níveis críticos. Indicam que o desastre é eminente.

Não vou dizer que a situação é irreversível porque aprendi que nessa parte do globo terrestre a gente sempre tem que avaliar e considerar a hipótese da não hipótese. As chances da exceção a regra são geométricas, tomara!

Olhando esse mar maravilhoso em que os surfistas riscam as ondas como se rabiscassem uma coreografia celestial no contra luz do sol que começa a cair não dá para acreditar nos nefastos acontecimentos. São eles que geram os prognósticos negativos.

Nem vou entrar em detalhes que de tão cabulosos e agressivos estão levando a população à beira de um ataque de nervos coletivo.

Além da perda de direitos e das esperanças o que se vê é o prenúncio de uma guerra anunciada. Em que um dos lados dá sinais de que nem as regras básicas do jogo serão cumpridas. A intenção claramente é a de demolir as instituições. As palavras de ordem são invasão e agressão.

Tá danado, amiga. E todos os recursos, inclusive os motores e robôs das redes sociais, estão na arena.
Talvez você não saiba do que estou falando ou talvez já imaginasse em suas projeções, as que abriram seu caminho para a clausura voluntária.

São novidades perversas, instrumentos de disseminação do medo, do ódio e da confusão. Entraram em voga depois do seu exílio, querida, derrubando a credibilidade e provocando a multiplicação da desorientação generalizada. É um bate cabeça interminável.

Não, (agora reconheço seu alerta, amiga) esse mundo não é para amadores.

E, sinto muito dizer, nem para as abelhas, polinizadoras da vida, que morrem aos borbotões indicando (também) que tem alguma coisa errada na ordem natural das coisas.

Paralelamente, uma das “ilhas de prosperidade” da combalida economia brasileira nos primeiros meses de 2019 foi, justamente, as vendas de defensivos agrícolas que subiram mais de 27%!

Enquanto o mundo se preocupa o governo brasileiro abre a porteira da agressão ao meio ambiente agindo de forma criminosa e inconsequente na contramão dos alertas ambientais mundiais.

Não preciso dizer o que isso significa nos meus planos de partir desse para mundos melhores.  A força propulsora dos motores da minha nave cada vez tem menos chances de me irar dessa roubada.

Para finalizar, e poetar, porque ninguém é de ferro, nos restam a fresta (da janela) e a lua (tão nua). Ligações amorosas que nos unem (ainda) na luz.

Do seu Pluct, Plact.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

14 de mai de 2019

Como outra qualquer, Flotropi. Fábula fabulosa de Valéria del Cueto

Como outra qualquer, Flotropi

Texto e foto  de Valéria del Cueto

A bicharada não está acreditando na performance do novo boss do mundo animal da Flotropi.
É por que se a fauna botou no governo um mito que pensa que seu mandato se expande por outras gerações de sua estirpe, a flora e os representantes do mundo mineral já mandaram avisar que não têm diálogo com quem já disse que quer “explorar” a natureza. Que a bicharada se responsabilize por suas escolhas, mas não venham dar pitaco no quintal alheio.

E não foi sem tempo: o mito já decretou o arrasa quarteirão dos recursos naturais. Tudo a troco de uns caraminguás.

Verdade seja dita, muito foram contra a ascensão da prole unida, mas não souberam se fazer ouvir. Outros, lavaram as mãos, asas, patas e guelras. Deu no que está dado.

Um desastre em proporções quase que bíblicas. O advento de mais um sacode florestal. Essa bicharada, cá entre nós, não acerta uma.

A coisa anda séria lá pros lados da clareira. Tem pena, couro, escama e pele sobrando pra todo lado. Nas redes sociais os papagaios, caturrita e afins estão a ponto de cair dos galhos, de tão cansados do leva e traz.

O causo é que um dos mitos filho assumiu o papel e o (des)controle das comunicações reais trazendo insegurança, desavenças e ampliando o destempero que que acaba provocando o desemprego para os antigos responsáveis pelo setor e a certeza que agora não é tudo nem nada, restou apenas uma grande confusão.

O que, obviamente, levou ao maior índice de inconfiabilidade já registrado na comunidade da floresta. Quando abriram as cortinas do universo, nem a lua conseguiu cantar em verso sua história astral.

Não há espaço para premonições, profecias nem poesia. Tudo é credo, cruz e muitas vezes sobra até pra ela, a Ave Maria. Imagina o que passa na cabeça de todos os santos?
Resumindo, não há mais alegria.

É tempo de medo, delação e preconceito no reino animal. Tipo cobra comendo cobra.
É um tal de chamar urubu de meu louro, num período em que o me engana que eu gosto está valendo ouro.

Não é necessário dizer que esse espirito de porco generalizado que se espalha tão estridente e insuportável como o canto da araponga ultrapassou as fronteiras anunciando medidas radicais e inconsequentes do governante de plantão.

No seu entorno, diga-se de passagem, só a fina flor. As gralhas gritam, as hienas, entre risadas, afagam, dando o bote. As raposas seguem rodeando e fazendo de conta que quem manda é o rei, enquanto desmantelam a estrutura florestal.

Não está sobrando ninho sobre os galhos, toca nas árvores, no mato ou sobre a terra. Mas tem animal achando bom.

Ou melhor. Tinha. Para gáudio e satisfação dos caçadores, apesar de proibido nas leis do reino, o mandatário mor liberou as armas, criando um desequilíbrio de forças entre as espécies. Não satisfeito, reduziu as verbas para a educação florestal.

Para finalizar, enquanto seu guru cospe impropérios contra os militares do exército real, o chefão avisa que mandará para a instância superior judiciário florestal seu dobermann da segurança e contenção que anda um pouco chateado com a falta de atenção com seus planos contra a corrupção (ora pois) e segurança.

Isso tudo em uma semana como qualquer outra aqui na pacata Flotropi...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

3 de mai de 2019

O que salva é a sanha, Fábula Fabulosa de Valéria del Cueto

O que salva é a sanha

Texto e foto do ensaio MOSAICO de Valéria del Cueto

Querida cronista. Embalado por um funk que manda “...todo mundo tomar no C’, filho da...” estou te passagem por uma ponta pra poder dar um alô e “firmar” que ainda ando nas quebradas tentando “dichavar” esse bagulho doido (e malhado, diga-se de passagem) que rola por aqui.

Tá me estranhando? E com razão, melhor amiga. Faz parte do processo de assimilação e osmose que desenvolvemos para adequar-nos melhor ao habitat visitado em nossas viagens interplanetárias. Entendeu bem. Ando muito cria, cheio de irmãos.

É claro que poderia escolher outras tribos para camaleonicamente me camuflar. Mas, como você, minha cronista voluntariamente exilada do outro lado do túnel, me receberia pelos raios da lua que passam pela fresta da janela de sua cela se, por exemplo, seu extraterrestre camarada se disfarçasse de parlamentar?

Acho que travestido de quem aceita um faz-me rir das emendas parlamentares para aprovar projetos por vezes inconstitucionais e sempre prejudiciais à população brasileira, agredindo colegas no plenário que denuncia a manobra, derramando lágrimas de crocodilo e jurando inocência por crimes eleitorais cometidos (comprovados e julgados por unanimidade, tal a consistência das provas), não seria bem recebido em seu isolamento.

Minha nega, deixa eu te contar. Outra possibilidade seria assumir a falsa moral da dinastia que acha que governa seu amado país.

Agir como quem interfere na política de preços de empresa estatal de economia mista, “tira do ar” campanhas publicitárias de instituições financeiras, manda os homens lavarem suas partes íntimas(!), anda de moto com chapéu de capacete, descumprindo a legislação de trânsito e num pronunciamento de um minuto e vinte segundos expõe sua incapacidade explícita de ler no teleprompter.

Não, meu dengo, não posso assimilar a persona de quem acredita que as milícias cariocas merecem aplausos e louvores, surrupia o acesso alheio do pai às redes sociais (aprendeu o truque com quem?). Claro, sendo massa de manobra contra a própria mãe numa eleição, aos 17 minutos do primeiro tempo, é fácil entender a existência de funcionários que nunca receberam seus salários, por exemplo.
Cronista, abriram a caixa de Pandora e, a cada dia, o cerco se aperta mais. Num avanço proporcional a entrada de armas de grosso calibre no país noticiadas na imprensa.

O processo de dizimação da população “inútil” se desenvolve embaixo do nariz das próprias vítimas. O emprego encolhe. A “abertura” ao exterior tende a ajudar a enfraquecer ainda mais as representantes nacionais que resistem bravamente. A deterioração da saúde passa a ser uma porta aberta para a aceleração da “limpeza”. A incompetência da segurança pública ajuda a dizimar a população mais pobre.

O que salva, por enquanto, é a sanha. A vaidade e a ambição. Desmedidas. Aliadas a falta de conhecimento e conteúdo. É um tal de diz e desdiz. Em vez de cuidar das questões nacionais e das reais dificuldades do povo a ordem é a volta da Solange. Lembra dela, aquela que era chefe da censura? Mesmo sem ter poder para tanto, a ordem é dada! Depois... desdada por que deu ruim. É a lei!

Não quero, nem mereço, esse tipo de simbiose. Já dói demais ver de perto a manipulação contra os índios, a irresponsabilidade com o meio ambiente.  “Não falem garimpo, digam MINERAÇÃO, recomenda o ministro baba ovo” com a câmera já gravando o encontro das impossibilidades para enganar trouxas.

Querida, guarde a imagem da lua que nos ilumina, lembre do apelo de Gil em Lunik 9, “Poetas seresteiros, namorados correi...”. E... corra! Corra para o que preserva sua sanidade. Esteja onde estiver.

Por aqui, sigo registrando, anotando e assimilando (por enquanto o que escolho) do que acontece nesse mundo doido. De onde não consigo sair por incapacidade propulsora da nave que piloto. Aliás, com as novas medidas implementadas por aqui, acho que o buraco de ozônio que me separa da Via Láctea, só tende a se ampliar...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM...  delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55