Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA

28 de abr. de 2022

Enfim, o título da Grande Rio. Fala, Majeté! - por Valéria del Cueto

Foi na encruza de Duque de Caxias que a esperança acendeu e firmou o ponto no carnaval 2022.
Enfim, o título da Grande Rio. Fala, Majeté!

“Fala Majeté! Sete Chaves de Exú” mostrou que o caminho para o título tão almejado nunca foi o do luxo e dos famosos que fazi am a fama da Grande Rio.

O pote de ouro no final do arco-íris estava bem ali, nas ruas, nas feiras, no carnaval, nas encruzilhadas, na história de Estamira, a catadora de lixo com problemas mentais, retratada no documentário de Marcos Prado, no Aterro Sanitário de Jardim Gramacho, que conversava com o orixá pelo telefone.

Confeccionado com restos de material do barracão, o carro da Grande Rio é uma obra de arte.

A façanha inédita era o objeto de desejo da comunidade de Duque de Caxias, município da região metropolitana do Rio de Janeiro, desde que a Grande Rio ancorou definitivamente no Grupo Especial, em 1993.

Seu desfile seduziu o público presente no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Ficará na memória como um dos mais empolgantes do… século!

A forte mensagem do Salgueiro: Resistência!

Não foi exatamente um carnaval tranquilo. A começar pelos problemas de estrutura, o que é de se estranhar depois do período conturbado de Marcelo Crivella na Prefeitura do Rio. Quem pensou que Eduardo Paes pegaria o trem na estação onde desembarcou no final de seus 8 anos de prefeitura perdeu feio a aposta.

Do credenciamento conturbado, passando pela falta de segurança no entorno e a precariedade do sistema de transporte, até chegar a estapafúrdia novidade, a iluminação milionária da pista, o que se viu foi uma sequência de erros e equívocos inaceitáveis para quem não era marinheiro de primeira viagem.

Mesmo assim, Dudu Boa Praça fez a fama e se sentiu à vontade pontificando em cada escola mostrando sua  intimidade com o povo do samba.

A nova iluminação da pista cantada em verso e prosa é, para dizer o mínimo, um desconforto para o público nos intervalos entre as apresentações. Ninguém via ninguém entre as idas e vindas erráticas dos fachos de luzes e a troca das cores performáticas do equipamento composto por 144 moving lights, 144 projetores de led, duas mesas de controle DMX, rede de controle, 24 quilômetros de fibra, etc, ao custo aproximado 16 milhões de reais.

Nos desfiles a luz fixa, mas irregular, dificultou os registros de vídeos e fotos e, com desenho luminoso antes e depois das escolas, se perdia a profundidade das imagens. Prejuízo geral. Especialmente para quem pagará a extravagância desnecessária gerada por meio de uma Parceria Público Privada: o povo carioca.   

No quesito sonorização, em vez de excesso, houve ausência de qualquer melhoria no sistema. Esse, sim, um gargalo que a organização do carnaval não consegue solucionar, apesar de ser elemento essencial ao desempenho das agremiações e solicitação recorrente.

As deficiências foram minimizadas pelas saudades sentidas por milhares de componentes e o público, ávidos por sentirem, novamente, brotar a energia do amor incondicional que o Desfile das Escolas de Samba desperta em cada folião.

DESFILE DAS CAMPEÃS

A forte mensagem do Salgueiro: Resistência!

Foi por um décimo que o Salgueiro ficou entre as 6 escolas do desfile das campeãs. Desbancou a Mangueira, com o mesmo número de pontos da Mocidade, mas uma posição acima pelo critério de desempate. “Resistência”, o enredo de Alex de Souza, é um libelo à força da raça, à luta do povo negro e suas conquistas.

Lucinha Nobre e Marlon Lamar, o casal da Portela.

Resistência segue na fita da segunda escola a se apresentar, agora em sua forma orgânica, o Baobá. “Igi Osè Baobá”, enredo da Portela, fala do pilar que une o céu a terra, a árvore da vida, da… resistência. A porta-bandeira Lucinha Nobre, vencedora do Prêmio Estandarte de Ouro, desfalcará a escola de Madureira. Indo dar um beijo em seu irmão durante a passagem da escola que fechou a disputa do Grupo Especial, no sábado, Lucinha quebrou o pé.
Iaiá do Cais Dourado, do samba enredo de Martinho, representada pelas baianas da Vila.

Esse irmão é Dudu Nobre um dos autores do samba sobre Martinho da Vila que deu o quarto lugar à Vila Isabel num desfile pra lá de animado. Saudar a vida e a carreira do compositor só poderia ser dessa maneira. Uma festa familiar e popular na avenida.  
Eita família animada! Dandara Ventapane, porta-bandeira do Paraíso do Tuiuti, se diverte na homenagem a seu pai, Martinho da Vila.

Essa animação vai continuar com a Viradouro, a terceira colocada. Talvez, sem estar numa disputa, o delicioso samba da “carta sincera” possa ser levado em um andamento um pouco menos acelerado, o que tornará a passagem da escola de Niterói mais leve e solta.
Ludicidade na concepção visual da história de amor do Pierrô da Viradouro.

O quilombo nilopolitano ocupará a Sapucaí ao som inconfundível da voz de Neguinho da Beija-Flor impondo, mais uma vez, a força da comunidade que quase levou mais um título com o enredo de Alexandre Louzada “Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor”.
Recado do Quilombo Beija-Flor sobre racismo e democracia.

Conhecida como a escola dos globais e do glamour, foi com a chegada de dois carnavalescos que estreavam no grupo Especial, Leonardo Bora e Gabriel Haddad, que a Grande Rio deu uma guinada na temática de seus enredos. Se voltou para o próprio universo, foi vice no último carnaval. Bateu, mais uma vez, na trave com o enredo sobre o famoso babalorixá Joãozinho da Goméia. O samba dizia: “Eu respeito seu amém, você respeita minha fé”.

Não por acaso o tema deste carnaval foi lançado no dia 13 de junho, dia do orixá Exu. A divindade é o senhor dos caminhos, a energia do movimento que a igreja sincretizou em demônio, em ser do mal. Desmistificar essa visão era um dos objetivos do enredo caxiense que levantou a Sapucaí. Levou o campeonato, o primeiro da Grande Rio.
Oxum é destaque na criação de Alexandre Louzada, carnavalesco da Beija-Flor.

O desfile das Campeãs do RJ será transmitido no sábado, pelo Multishow, a partir das 21:15h, horário de Brasília.

Ordem dos desfiles: Salgueiro, Portela, Vila Isabel, Viradouro, Beija-Flor e Grande Rio.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

A pomba-gira e a sedução do povo de rua

Studio na Colab55

21 de abr. de 2022

Valei-nos São Jorge! Um carnaval pra você, por Valéria del Cueto


Desfile de Escolas de Samba no feriado dedicado a São Jorge e ao Choro, no Rio de Janeiro.


Valei-nos São Jorge! Um carnaval pra você.

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Desfile de Escolas de Samba no feriado dedicado a São Jorge e ao Choro, no Rio de Janeiro.

Se alguém contasse, dariam risada da ideia (aparentemente) impossível... Após um ano e outro fevereiro perdido, a disputa carnavalesca carioca de 2022 se realiza nos dias 22 e 23 de abril. Vem depois do descobrimento do Brasil que passou em ritmo das apresentações do Grupo Ouro, o acesso, abrindo os trabalhos da pista do Sambódromo da Marquês de Sapucaí desde quarta-feira. 

Ensaio técnicos, o povo do samba na pista

O Desfile do Grupo Especial das Escolas de Samba do Rio de Janeiro já chega com mudanças significativas.  Depois da realização do mini desfile de lançamento na Cidade do Samba, em fevereiro, março entrou com a volta dos ensaios técnicos nos finais de semana no Sambódromo, como há anos não acontecia!

Os encontros coroaram o calendário prolongado por mais de 40 dias de preparação nos ensaios das quadras das escolas e ruas das comunidades. Ensaios de canto, bateria, dos segmentos. Como o casal de mestre-sala e porta-bandeira, a comissão de frente, as alas coreografadas. Carnaval não se faz da noite para o dia, o povo do samba trabalha o ano inteiro!

Pista? Sim. Rua, não...

Estão todos ansiosos para botar o bloco na rua. Quer dizer, as escolas na Sapucaí. Porque os primeiros, os blocos, oficialmente não ocuparão as ruas novamente, apesar dos apelos feitos ao prefeito Eduardo Paes. Ele justificou a negativa à realização da folia dizendo que “dá trabalho” montar a estrutura carioca. Fica a pergunta: quem nasceu primeiro, a festa ou a organização?  A resposta está nas ruas da cidade.

Luz, sim. Som? Não...

Também foram feitas mudanças por muitos carnavais adiadas, apesar de exigidas inclusive pelo Ministério Público, na área do Sambódromo. A pista da Marquês de Sapucaí foi recapeada, depois das obras de drenagem e saneamento, a estrutura reformada. A novidade mais chamativa é a nova iluminação cenográfica. Por enquanto os recursos serão usados nos intervalos das apresentações.

A maior reivindicação de todos os frequentadores da Sapucaí, no entanto, segue sem ser atendida. O som da avenida continua precário. Nele, deveriam ser aplicados os esforços para melhorar o espetáculo. Ele, sim, faz parte e interfere na qualidade da maior manifestação cultural do Brasil.

Enfim, era agora ou nunca, como desse, quem pudesse. E, cá pra nós, as escolas e suas comunidades estão ansiosas para ocuparem a pista!

Para quem quiser acompanhar os dois dias de maratona carnavalesca carioca serão transmitidos pela TV Globo, após o horário nobre, e pelo Globoplay a partir das 22 horas. A dica, como sempre, é ver pela TV ouvindo os comentários pelas rádios. A TupiFM - 96.5, por exemplo, segue as imagens com comentaristas como Fábio Fabato e João Gustavo Melo, do canal do youtube Boi com Abóbora, um fenômeno carnavalesco durante a pandemia. Veja no final do texto a ordem das apresentações. 

Pista liberada após a lavagem pelas baianas

Sexta-feira, 22 de abril

A primeira noite será aberta pela Imperatriz Leopoldinense, campeã do Grupo Ouro 2020. Voltando do acesso a verde e branco convocou Rosa Magalhães para lembrar os carnavais de Arlindo Rodrigues, os tempos áureos de escola de Ramos e seu patrono, Luizinho Drummond, com o enredo “Meninos eu vivi... Onde canta o sabiá, onde cantam Dalva & Lamartine"Um diferencial é o samba ter um único autor, Gabriel Melo.

“Se a saudade é certeza / Um dia a tristeza será cicatriz / Eterna seja! Amada Imperatriz!”

Com “Angenor, José & Laurindo” Leandro Vieira também conduz os componentes da Mangueira, a segunda agremiação a se apresentar, a um mergulho na própria identidade abordando ícones da comunidade. Cartola, Jamelão e Delegado representam a poesia, a voz e o corpo em movimento verde e rosa. Esse é um dos sambas de Moacyr Luz que estarão na Sapucaí. Ele também está  na parceria do Paraíso do Tuiuti que abre o segundo dia de desfiles.  

“Mangueira… teu cenário é poesia / Liberdade e autonomia / Que o negro conquistou”

Viviane Araújo, a rainha salgueirense anunciou a gravidez.


O Salgueiro também se volta para seus pilares com o enredo de Alex de Souza “Resistência”. Viviane Araújo, rainha da bateria Furiosa, anunciou recentemente sua gravidez e personifica os versos do samba-enredo.

“Sambo pra resistir / Semba meus ancestrais / Samba pelos carnavais”

O comediante Paulo Gustavo é o homenageado da São Clemente em “Minha vida é uma peça!”. Desenvolvido por Tiago Martins o tema traz, acima de tudo, uma mensagem de esperança, otimismo e apoio à diversidade.

“Rir é resistir, seguir em frente / Paulo Gustavo pra sempre”

Campeã do último carnaval, a Viradouro foi uma das primeiras escolas a anunciar seu enredo logo depois do início da pandemia. “Não há tristeza que possa suportar tanta Alegria,deMarcus Ferreira e Tarcísio Zanon, aborda o carnaval de 1919, o primeiro após a epidemia da gripe espanhola.

O samba causou polêmica nos meios carnavalescos por ser em forma de... carta! O cantor Zé Paulo Sierra e Mestre Ciça estão se preparando para tentar o bi-campeonato apoiados pela comunidade niteroiense, a que bancou a ousadia para declarar o amor do pierrô à sua colombina e à folia.

Encostei os lábios suavemente / E te beijei na alegria sem fim / Carnaval, te amo, na vida és tudo pra mim

A carta sincera inspira a busca do Bi da Viradouro


Alexandre Louzada, carnavalesco da Beija-flor, avisa no texto de apresentação que “Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor, “é de autoria coletiva. Foi escrito pelas mãos, vozes e memórias de cada componente da nossa comunidade”. Emicida também é citado. Neguinho da Beija-Flor como sempre, brilha no samba nilopolitano que fecha a primeira noite de desfiles. Veja o recado:

Cada corpo um orixá! Cada pele um atabaque / Arte negra em contra-ataque

Beija- Flor e o trabalho de excelência da comissão de frente.


Sábado, 23 de abril

Dia de São Jorge e, portanto, de Ogum. Dia de incorporar conhecimentos, cantar em línguas ancestrais, dar passagem às entidades de rua. Se a primeira noite foi de reverência, essa é de referência. São nelas, as referências, que o povo do samba se apegou para navegar na rebarba do tsunami pandêmico que passou por aqui nos últimos dois anos.

O carnavalesco Paulo Barros se volta para a comunidade do Paraíso do Tuiuti em “Ka ríba tí ÿe - Que nossos caminhos se abram”. O samba usa uma palavra recorrente em outros concorrentes: RESISTÊNCIA. É uma das escolas que homenageia Mercedes Batista, a bailarina negra, por seu centenário, assim como a Beija-flor, a Grande Rio, o Salgueiro...

“Tem sangue nobre de Mandela e de Zumbi / Nas veias do povo preto do meu Tuiuti”

Renato Lage e Márcia Lagena Portela, também retornam às origens com “Igi Osè Baobá”, falando do Baobá, árvore que tem um significado especial na cosmologia africana. É a árvore da resistência, palavra, mais uma vez, citada na letra do baobá musical, o samba.

Quem tenta acorrentar um sentimento / “Esquece” que ser livre é fundamento / Matiz suburbano, herança de preto / Coragem no medo!

A Mocidade Independente de Padre Miguel, criou até gíria. O carnavalesco Fábio Ricardo vem “areretizando”. Desenvolve o enredo “Batuque ao Caçador” fazendo a conexão entre o toque para o santo da escola, Oxóssi, e os herdeiros do lendário Mestre André. O da famosa paradinha da bateria “Não Existe Mais Quente”. Entre os autores da composição está Carlinhos Brown.

“Arerê, Arerê, Komorodé / Todo Ogã da Mocidade é cria de Mestre André”

Waranã e a tribo Mawe, tema do enredo da Unidos da Tijuca


Foi mais ano de um período crítico para as etnias e reservas indígenas brasileiras. Ameaçadas por garimpeiros e invasores amparados pelo descaso das autoridades responsáveis e a desconstrução da rede de proteção legislativa que garante seus direitos, inclusive os constitucionais. Coube ao carnavalesco Jack Vasconcelos, na Unidos da Tijuca, abordar a temática dos primeiros habitantes locais contando a história do guaraná em “Waranã – A Reexistência Vermelha”.

“E se a cobiça e o fogo chegarem na aldeia / Deixa a força Mawé ressurgir”

O povo de rua vai passar pela pista da Marquês de Sapucaí em “Fala Majeté! Sete Chaves de Exú”, enredo de Leonardo Bora e Gabriel Haddad. A representante de Duque de Caxias deu uma guinada na temática de seus carnavais e ficou com o vice-campeonato em 2020 falando de Joãozinho da Goméia. Esse ano, mergulha mais fundo no universo das religiões afro-brasileiras em busca do título inédito.

“Boa noite, moça, boa noite, moço... / Aqui na terra é o nosso templo de fé”

Alegorias de mão e muita alegria no ensaio das alas


A noite se encerra com uma celebração. O homenageado da Vila Isabel é da casa e de casa. O carnavalesco Edson Pereira faz azul e branco abraçar Martinho da Vila. É festa do povo do samba no enredo “Canta, canta, minha gente! A Vila é de Martinho”.

“Em cada verso, mais uma obra-prima / Ousar, mudar e fazer sem rima”

BOX

Desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro

Transmissão pela TV Globo, depois do horário nobre e o G1 a partir das 22h.

Sexta-feira 22/04

Imperatriz Leopoldinense

Mangueira

Salgueiro

São Clemente

Viradouro

Beija-Flor

Sábado 23/04 

Paraíso do Tuiuti

Portela

Mocidade Independente

Unidos da Tijuca

Grande Rio

Vila Isabel

Torcidas reunidas para saudar as escolas

Studio na Colab55

23 de mar. de 2022

Dilúvio em terra de bamba? E a gente samba..., por Valéria del Cueto

Dilúvio em terra de bamba? E a gente samba...



Texto e foto de Valéria del Cueto

Quase um mês sem chover no Rio de Janeiro e a previsão para a noite do domingo, 20 de março de 2022, era de temporais. E assim foi na data marcada para os ensaios técnicos no Sambódromo das escolas de samba do Grupo Especial Paraíso do Tuiuti, Vila Isabel e Mangueira, no carnaval extemporâneo da pandemia, na Marquês de Sapucaí. Melhor o atraso aquático do que a ausência...


Depois de não poder participar do primeiro final de semana de ensaios técnicos por força de um compromisso assumido, esperei ansiosa pelo seguinte. Era o reencontro com os amigos e o início da preparação, quem sabe, de um novo roteiro para fotografar os desfiles marcados para depois da Semana Santa, em abril. Lembra que em 2020 os ensaios técnicos não aconteceram? Só a lavagem da Sapucaí, o teste de luz e som com a campeã do ano anterior, no caso, a Mangueira, na véspera do carnaval. A cara do Crivella e do atraso nas obras da pista, pra variar...

Antes do início das apresentações a chuva já lambia a pista dançando nas rajadas da ventania.

Já entrei no espaço do Sambódromo vestindo a capa e, para checar as condições, rumei em direção a torre de transmissão. Não precisei chegar até lá para imaginar o que veria. O vento empurrava as chuvas para o lado e não havia um único espaço seco na estrutura. Fiquei por ali ilhada embaixo das arquibancadas do setor 11, rodeando e conversando com o pessoal dos serviços gerais, sabendo da vida deles. Todos ligados ao mundo do samba, cadastrados e chamados para fazer a limpeza. Por perto guardas civis reunidos num grupo conversavam sobre... passagens da Bíblia!

Assisti o ensaio do Paraíso Tuiuti da torre mesmo e mal instalada, tendo que secar a lente manchada pelos respingos de tempo em tempo. Desci devagar a pista no intervalo e fui em direção a concentração. Não vi quase nada da Vila Isabel, como você (não) verá nos álbuns.

Fui direto à área da montagem do grid da bateria da Mangueira na Presidente Vargas, do lado dos Correios. Como o corpo da escola montou do lado oposto, na direção do lendário Balança Mas Não Cai, não consegui ver os componentes passando, nem visitar a concentração para rever os queridos amigos da comunidade verde e rosa. Só mais tarde, na pista...

Cheguei a tirar a capa de chuva, mas logo que foi dada a ordem de montagem da bateria, depois da reunião do Mestre Wesley e sua diretoria com os ritmistas, achei melhor vesti-la de novo. Não que fosse adiantar muito diante da água que despencou do céu no ensaio.

Saí no meio dos cuiqueiros gravando o desenho da bateria na passagem pelas arquibancadas do Setor 1 bem vazio, já que chovia pesado. Me desencantei quando, depois de seguir até o Setor 3 e retornar para o primeiro recuo com os ritmistas, descobri que a câmera não havia gravado! Das duas uma. Ou desanimava e desconcentrava ou dava o troco nas fotos.

Claro que optei pela segunda hipótese. Foi aí que descobri vasculhando a mochila e fazendo malabarismo enredada nas alças e mangas encharcadas que não estava mais com a “capa de chuva” do equipamento. Dei pela ausência do acessório essencial no primeiro módulo de julgamento e vi como fazia falta porque, por cima de mim, a manga de uma mão com um celular que gravava as apresentações da comissão de frente, pingava insistentemente em cima da Nikon! “Ai meu santo dos circuitos integrados, protegei o equipamento”, rezava no meio da cantoria...


Olhei em volta e a única coisa que achei foi uma bandeirinha da Vila Isabel, que havia acabado de desfilar. Expliquei a situação à senhora que estava na frisa e ela pediu para a neta ceder o plástico. Imaginei na hora se não estava desestimulando a menina, para quem a bandeirinha poderia significar uma lembrança da noite inesquecível.

Agradeci e improvisei um nozinho na parte de baixo da lente. Era o que tinha para o momento. Corri para o segundo módulo de julgadores serpenteando pelo meio das baianas e algumas alas embaixo do temporal. Registrei novamente imagens da comissão de frente e esperei pelo casal de mestre-sala e porta-bandeira, Matheus Olivério e Squel Jorgea.

Nessa altura já não tinha mais panos secos para enxugar o equipamento. Uma toalha pequena e um lenço estavam ensopados. Torcíveis, como a roupa do corpo. O tênis fazia choc choc nas poças da beira da pista. Impossível escoar tanta água, mesmo com o novo sistema recém inaugurado. Nas costas, a mochila por baixo da capa ainda resistia, mas o suor também a deixava úmida por dentro. O mesmo nos braços. Sentia a água escorrendo pelas costas, o capuz jogado para trás, inoperante.


Para acessar o álbum de fotos no acervo carnevalerio.com no Flickr clique na imagem ou aqui

A única preocupação era com a câmera. Lembrei da camiseta que havia trocado pela camisa antiga da bateria da Mangueira, para facilitar o reconhecimento pela harmonia da escola. Foi a salvação. Usei para ir enxugando a lente dos pingos e a câmera, protegida pelo corpo e a capa das rajadas de chuva.

Fiz os registros de Débora de Almeida e Renan Oliveira, o segundo casal, já na terceira cabine de julgadores, embaixo da torre de transmissão e por ali esperei a chegada da bateria comandada por mestre Wesley e a rainha Evelyn Bastos.


Usei a última parte da pista para fazer mais registros do mestre, da rainha e, claro, dos ritmistas que sambavam na dispersão, em frente a Apoteose de Oscar Niemeyer.

O arco se projetava sobre o povo do samba em sua manifestação carnavalesca mais genuína, num ritual mítico de lavagem e purificação das dores que cercaram a vida de todos nós nos últimos dois anos...

PS: As fotos saíram e, tanto a câmera quanto eu nos recuperamos. Ela mergulhada no arroz para secar e eu num banho bem quente pra reequilibrar.

Evoé que tem carnaval pela frente...

Valéria del Cueto é fotógrafa, jornalista e técnica cinematográfica. Da série “É carnaval”  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

@delcueto.studio na Colab55

Studio na Colab55

9 de mar. de 2022

Sacode a poeira - uma crônica indesejável da série "É carnaval" de Valéria del Cueto






Sacode a poeira!

Texto e foto de Valéria del Cueto

Então... Sabe o minidesfile das escolas de samba, a Abertura Rio Carnaval 2022, na Cidade do Samba, durante o carnaval? Falei nele no último texto publicado. Não fui. Não me pergunte o porquê. Ficaria no vácuo essa resposta. Só posso dizer como. Apesar de ter pedido o credenciamento antes mesmo dele ser aberto, ter renovado a solicitação no prazo determinado e reenviado novamente após apelar a quem de direito, fiquei a ver navios.

E assim estamos até hoje, caro leitor, olhando o mar e tentando decifrar o motivo da recusa.

Vou confessar, a pancada pegou em cheio depois de dois anos de pandemia onde, por convicção e respeito, abri mão de todas as atividades carnavalescas. A Abertura Rio Carnaval seria a volta ao mundo do samba. Os motivos justificavam a largada. Para começar, comemorar o fim do bloqueio que durante a reclusão me impediam de mexer, como gostaria, no acervo carnevalerio.com.

A quebra da barreira do amor (in)contido havia acontecido no ensaio fotográfico com Jhéssyka Santtos, passista da Mangueira. Dias depois, já às portas do carnaval, ela traria ao mundo Jady. Mais uma flor, uma cria verde e rosa. Voltar à quadra vazia rompeu um dique de emoções represadas e, finalmente, estabeleci a meta de cair dentro da Abertura Rio Carnaval que aconteceria em seguida.

Sempre disse que essa história de fazer planos não combina comigo...

A outra razão para definir o evento como meta, pauta e capa do Diário de Cuiabá pós carnaval era, claro, ver como funcionaria o formato de minidesfile proposto pela Liesa.

Bailei na curva e, por isso, estou aqui justificando para você, leitor de tantos carnavais, não trazer imagens nem impressões da festa da Liesa, a largada do novo período do carnaval carioca que acontecerá em abril.

Tentei acompanhar pelas redes sociais, mas não consigo, com as informações fragmentadas, formar ou repassar qualquer opinião.

Também não acho justo quebrar, depois de tantos anos, o compromisso de colocar em suas mãos material exclusivo em texto e imagens, sempre acompanhado daquele alerta de que as impressões narradas eram as minhas e que, portanto, não falaria do que não vi, apenas do que passou diante dos meus olhos. A máxima continua valendo. O que não vi não posso analisar ou avaliar.

Nessa hora, não penso apenas nos leitores de Mato Grosso que acessam os textos e crônicas por meio do jornal e sites parceiros baseados lá e em outros estados.

Vou confessar: queria mesmo era contar o que (não) vi para Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, pelo Tribuna. Afinal, um novo formato mais compacto de desfile poderá ser adaptado à cidade na fronteira gaúcha que já tem uma robusta tradição de carnaval e, no momento, se prepara para um upgrade em suas estruturas turísticas com a vinda de muitos visitantes alavancada pela abertura de freeshops e um novo fluxo de turistas da tríplice fronteira.

Fica para o próximo evento que inclua os minidesfiles. Eles virão, tenho certeza.

Até lá, nada de promessas ou planos. Em abril haverá o desfile das escolas de samba no Sambódromo fechando um mega feriadão que começa na Semana Santa e termina no fim de semana de Tiradentes e São Jorge.

Como nos últimos 14 anos, pedirei credenciamento. Esse, o da Sapucaí, incluindo o colete para fotografar na pista, nunca me foi negado. Mas, pós pandemia, sei lá. Fiquei com trauma, depois do bloqueio.

O que prometo a você, querido leitor, é não deixar de pedir passagem e o acesso dos cronistas carnavalescos ao palco da festa para que haja um registro autoral da folia. Para que se preserve o espaço dos responsáveis pela criação dos desfiles que, por coincidência, aconteceu há 90 anos.

Até lá, firmo o compromisso que está ao meu alcance de voltar à Sapucaí nos ensaios técnicos. Aqueles que definharam, foram suspensos e voltarão, nos próximos finais de semana, com força total!

Tudo se renova... Por que não a fé em um inesquecível, mesmo que tardio, carnaval?

Evoé!

*Valéria del Cueto é jornalista e fotógrafa. Da série “É carnaval”  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

25 de fev. de 2022

Carnaval 2022, igual não vai ser!


Carnaval 2022, igual não vai ser!

Nem aos que passaram, nem ao último que não chegou.

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Seguimos sem blocos nas ruas e desfiles das escolas de samba na Sapucaí. Em compensação...

2022, O ANO DA INDEFINIÇÃO  

Novela é pouco para descrever o conjunto da obra que se desenhou nesse início de 2022 na história do carnaval no Brasil e, especialmente, no Rio de Janeiro. Depois de sobreviver heroicamente aos 4 anos do ex-prefeito Marcelo Crivella, veio a pandemia. Tudo cancelado. E ela ainda persiste! Com vacina, na base do seja o que Deus quiser.

Nos capítulos anteriores o Réveillon, festa tradicional no calendário turístico carioca, chegou a ser cancelado. Isso, antes do prefeito Eduardo Paes voltar atrás e a cidade receber de braços abertos turistas do Brasil e do mundo.

A variante Ômicron batia na porta. Chegou, se instalou e provocou aglomerações extras nos postos de testagens e vacinação, além de aumentar a procura nos hospitais públicos e particulares no primeiro mês do ano.

No início de janeiro o cancelamento do carnaval de rua já era um sinal de que podia pegar para o desfile das Escolas de Samba do Rio.

Não deu outra. Um dia depois do feriado de 20 de janeiro em homenagem ao padroeiro da cidade, São Sebastião, o prefeito Eduardo Paes, após uma reunião relâmpago e inesperada (o martelo seria batido no dia 24) com seu colega de São Paulo, anunciou o cancelamento do maior espetáculo popular do planeta para evitar o “risco reputacional”, como explicou no programa Roda Viva, da TV Cultura.

Mas só. O resto? Não sendo blocos e desfiles está liberado. Festas, eventos... Então, esse ano não vai ser igual a nenhum outro que passou.

E vamos às novas.

RIO CARNAVAL - nova marca, novo formato

A novidade da temporada é a Abertura Rio Carnaval, na Cidade do Samba, nos dias 26 e 27 de fevereiro. A nova marca/conceito Rio Carnaval será implementada   festivamente na prévia, organizada pela Liesa, do que acontecerá nos aguardados desfiles carnavalescos anuais da Marquês de Sapucaí transferidos para o feriado de Tiradentes, em abril.

NOVO FORMATO

O roteiro do espetáculo começa no palco central. Milton Cunha receberá as escolas de samba do Grupo Especial (ordem dos desfiles nos destaques) apresentando um “combo” com direito a, no máximo, 20 minutos de sambas antigos e esquenta no palco. O samba desse ano será puxado pelos componentes do carro de som conduzido pelo mestre e sua bateria, claro, com sua rainha. A comissão de frente, casal de mestre-sala e porta-bandeira, representantes de segmentos como passistas, musas e baianas comporão o pocket desfile de carnaval. As agremiações terão 50 minutos para a performance no palco e percorrer a pista do complexo dos barracões.

Cá entre nós, será um piloto para a Rede Globo do tamanho que ela gostaria que fosse a transmissão carnavalesca de cada agremiação. Foi fácil resolver a equação. Bastou reduzir de 4 mil para 160 o número de componentes por escola e tirar as alegorias.

Para esquentar as noites têm convidados especiais na abertura. Num dia, o Cacique de Ramos, no outro, o Cordão do Bola Preta. Também tem DJ “para agitar os convidados no intervalo”.

COMO ACOMPANHAR

A FM O Dia é a rádio oficial do evento. Segundo os organizadores não haverá transmissão ao vivo para a TV.

As redes sociais poderão ser, mais uma vez, um fenômeno na distribuição de imagens para o público, ávido do imaginário do carnaval carioca.

A Rádio Arquibancada também estará no ar!

À LIGA RJ, O CRÉDITO DA INICIATIVA

Quem colocou o ovo do mini desfile na pista da Cidade do Samba em pé foi a Liga RJ, que congrega as escolas do chamado Grupo Ouro, o acesso. Ela utilizou o formato inédito na festa de lançamento do CD dos seus sambas em dezembro. A brincadeira deu certo. Era uma festa para um público restrito. E não o carnaval.

OUTRAS OPÇÕES

As festas se espalham pela cidade em diferentes formatos. As próprias agremiações farão eventos em suas quadras procurando se capitalizar e atender suas comunidades dentro das novas normas.

Até segunda ordem, nas ruas não pode nada. Já em ambientes restritos e “controlados”, não há limitações. O que não impediu a saída no último domingo do Bloco “Não Adianta Ficar Putin”, no centro da cidade, logo dispersado pela Guarda Municipal

A cidade está cheia, repleta de visitantes que, em sua maioria quase absoluta, dispensa o uso de máscaras e não respeita as orientações de não aglomerar.

Fazer o que? É carnaval no Rio de Janeiro...

SERVIÇO – Rio Carnaval

Abertura dos portões às 19 horas. Ingressos nas agência de viagem, pelo site já estão esgotados individuais e camarotes para os dois dias, 26 e 27/02.

Como nos demais (e são muitos) eventos que acontecerão no Rio de janeiro no período do carnaval, a Liesa avisa que será seguido o protocolo sanitário, sendo necessária a apresentação do comprovante de vacinação para acesso e permanência na Cidade do Samba.

Programação 26 e 27/02:

SABADO 26/02 - IMPERATRIZ / SÃO CLEMENTE / VILA ISABEL / PORTELA / SALGUEIRO / BEIJA-FLOR

DOMINGO 27/02 - TUIUTI / TIJUCA / MANGUEIRA / MOCIDADE / GRANDE RIO / VIERADOURO

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É carnaval”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

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