Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA

11 de ago de 2018

Adivinha? Fábula Fabulosa de Valéria del Cueto


Adivinha?

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Texto e fotos de Valéria del Cueto

Estiquei o máximo que pude e dei linha para a pipa da cronista enclausurada sabedor dos efeitos prolongados da lua de sangue do eclipse do final de julho.

A desculpa é boa mas não totalmente verdadeira por deixar de retratar o impacto que a noite de sexta-feira e os efeitos do fenômeno provocaram em mim, um extraterrestre reconhecidamente acariocado.

Descrevo o evento para explicar a demora nesse contato com a amiga voluntariamente recolhida a uma cela do outro lado do túnel.

O veranico de julho ainda reinava, transformando a paisagem do Rio de Janeiro um daqueles cartões postais que conseguem apagar com sua exuberância e beleza as mazelas da cidade. Água caribenha, apesar da ressaca que chacoalhou o litoral nos dias anteriores, céu de brigadeiro e uma brisa fraca esperavam os visitantes que se preparavam para ver o eclipse. O primeiro lugar escolhido por 10 entre 10 apreciadores foi o Forte de Copacabana. No meio da tarde a fila gigantesca que serpenteava pela Francisco Otaviano recebeu a notícia que as senhas para a entrada nas instalações militares haviam se esgotado.

A opção B foi a Pedra do Arpoador, do lado da Praia do Diabo. Disfarçado de mim mesmo cheguei cedo e encontrei uma protuberância que serviu de mangrulho (posto militar de observação em lugar elevado, aprendi a palavra numa música gaúcha) natural. Dali não saí nem me mexi até o final do espetáculo. E assim tinha que ser já que, depois de estabelecida a base, a população cresceu absurdamente no entorno. A ponto de não dar mais nem para esticar as pernas.

Depois do por do sol a quantidade de gente cresceu mais ainda. Quem estava apreciando a performance solar, não tão bonita quanto no verão quando o sol se põe no mar, entre as ilhas, viu o astro-rei descer entre os prédios e a montanha. Depois, se moveu para ter o visual do lado leste, onde a lua surgiria.

Era engraçado ver a direção em que a maioria dos assistentes se posicionou. Claramente achavam que a lua, já eclipsada e, portanto, avermelhada surgiria em cima das montanhas quando, na realidade, ela apareceu por cima do mar.

Aí, veio a segunda confusão. A “linda bruma” que se via na barra do horizonte (na verdade, uma camada de poluição) era tão espessa que a lua teve que vencer essa nova barreira e já surgiu quase tossindo, pálida de tanta suspensão, bem acima do mar.

Não precisa dizer que entendo plenamente o significado dessa camada, a mesma que impede minha espaçonave de ultrapassar o ozônio que habita a atmosfera terráquea e me levaria para novas aventuras intergalácticas.

Não fosse esse jeito carioca de ser já assimilado, certamente, já teria entrado em desespero e feito alguma tentativa desesperada de levantar âncora em direção a novos mundos.

Acontece que nessa terra, basta a gente ficar imóvel e deixar a vida passar em seu ritmo (a)normal para saber que não haverá tédio nem paradeira. Entre músicas diversas, drones dispersos e muitas câmeras mais ou menos profissionais a lua, acompanhada de Marte, brilhando forte, deu um banho de luminosidade na humanidade.

Foi deixando essa energia fluir que me atrasei um pouco para vir trazer as novidades. Esperava que o efeito também se prolongasse pela fresta que a ilumina. Pelo menos até chegarmos as últimas novidades.

Cara amiga, acredite, “habemus candidatus”. Para todos os gosto e tipos. Encarcerados como você, apalermados, genéricos, patéticos, coligados, ajojados, amontoados, enfim, para tudo falta pouco. O grande dilema para candidatos a presidente e governadores foram os vices, todos escolhidos na última hora, alguns pegos a laço.

O próximo passo? O compasso. Um átimo até as eleições, onde nem a lua adivinha o que poderá acontecer...

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM...delcueto.wordpress.com



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26 de jul de 2018

Quase perdido, crônica de Valéria del Cueto

Quase perdido

Texto e foto de Valéria del Cueto

Ando pela praia deixando para trás as janelas que me cercam, enfeitadas de suportes, motores e tubos dos respectivos aparelhos de ar condicionado. A visão não é mais dos encanamentos de gás, fios e cabos das operadoras que trazem o mundo exterior ao quadrado nosso de cada um.

Os sons das pancadas da obra do 102 ficam, juntamente com o esmerilhar de dias que viram semanas da reforma do 602, esquecidos apesar de ser (ainda) horário comercial nessa quinta feira de julho.

A cada passo deixo cair um incômodo, uma reclamação, um desamparo. Quem derruba pedaço a pedaço as camadas compostas por placas da armadura da (des)humanidade é o sol.

Seus raios descolam o barulho, o engolir desaforos, o desrespeito, o descaso com o cidadão, as ilusões perdidas, o cansaço (como [d]escrevo pouco essa palavra, tão presente nas lutas infindáveis de tantos que vivem a sensação do tempo e da vida desperdiçada).

No caminho, afundando as pegadas n areia, deixando que ela faça cócegas na planta dos pés, vou me livrando da camisa, da saia. Aumentando a área de contato direto com o calor e a sensibilidade aos fatores do entorno e sua luz encantada.

Os murmúrios do mar composto por diversos sons e ritmos inconstantes começam a penetrar e perfurar mais uma barreira levantada permitindo que se abra mais um sentido. O próximo elemento é a água tépida que brinca de lambiscar a areia. E, nela, estamos nós. Meus pés e eu. Primeiro, um arrepio. O prazer provoca um gosto de quero mais, depois. Agora não. Ainda não.

Falta pousar. Largar os pertences, se entregar ao nada do tudo que te cerca. Sigo procurando o lugar. Distraída, reconheço, fiscalizando as ondas, avaliando as possibilidades e, sim, viajando junto do menino que se lança com sua prancha de pra lá de depois da quina da Pedra do Arpoador numa onda perfeita. Passa riscando a danada, cruza bailando em seu miolo e sai dela, numa manobra final quando, depois de representar com excelência seu papel, a ondulação mingua extenuada marolando preguiçosa em direção a areia.

Pois foi dessa marola que meu olhar se fixou no bailar dos reflexos na água translúcida bem na beira. Só faltam os peixinhos nadando. Mas esses, a gente sabe que não estão na área. Se houvesse cardumes o horizonte estaria salpicado de embarcações pesqueiras, o que não acontece.

Sim, existem outras personagens no paraíso. Mas, diante de sua exuberância natural, se tornam menores. O som incomoda? Troca de lugar. Nem todos conseguem captar as vibrações reinantes? O que importa...

Essa não é uma crônica para relatar problemas e indelicadezas. Seu objetivo é narrar as delícias do paraíso que a natureza, e só ela, nos reserva enquanto deixarmos ao longe os gritos das crianças brincantes de alegria na beirada do mar que se misturam ao ritmo dos pregoeiros oferecendo seus produtos.

No lugar em que começo a escrever, depois de estender a canga, ler um pouco e deixar que meu espírito se integrasse a sintonia, começo a notar uma diferença no vai e vem do mar. Não sei explicar. Defino como uma urgência, um tom mais seco. Menos dolente. Sinal que a maré está subindo.

Tão inexorável quanto o sol que se inclina em direção aos prédios no horizonte. É ali que ele cai no inverno. Não é ele que define o movimento. É a maré que me obriga a ficar atenta, ligada e conectada. É a natureza que informa o momento de puxar a âncora, recolher a vida.

Quando levanto os olhos vejo os habitantes do planeta. Celulares nas mãos e nos olhos conferindo seus próprios “eus” emoldurados pelas imagens de um paraíso. Quase perdido...

*Valéria del Cueto é jornalista,   e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

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18 de jul de 2018

O chuá no chuê, chuê - por Valéria del Cueto

O chuá no chuê, chuê

Texto e foto de Valéria del Cueto

Céu, sal areia, mar. É tudo que se faz necessário para, finalmente, abrir o ciclo do segundo semestre (pós Copa do Mundo da Rússia) já em curso. A registrar, além das surpresas que fazem do futebol um esporte tão vivo quanto a bola do jogo, as cenas inesquecíveis da premiação.

Se tudo estava quase dando certo para a imagem vendida ao mundo pela potência anfitriã, ali, todo esforço semiótico (que incluiu ensinar seus sisudos cidadãos, pelo menos nas cidades sedes, o poder do sorriso), caiu por terra.

Na verdade, a lua de mel havia ido somente até a questão da homofobia legal que impede manifestações LGBTS e afins de qualquer tipo em local público. O limão acabou virando limonada e as camisas das torcidas formando a “bandeira” com as cores do arco-íris foi notícia mundial. Um estepe alegórico que tirou o foco da questão mais séria: o direito usurpado de manifestar sua sexualidade livremente.

O que se esperava? Não, a Rússia não é um país democrático. Portanto, manda quem pode, obedece quem quiser (ainda) ter juízo.

Na cerimônia de encerramento a participação do atabaque do campeão mundial de 2002 Ronaldinho Gaúcho foi, sem dúvida, um toque de mestre para aproximar a nação que convidava de seus exóticos visitantes de todos os quadrantes do mundo. E convenhamos, quando o assunto é sorriso, Ronaldinho bate um bolão.

Tudo acontecia conforme o minunciosamente planejado até que um imprevisto climático serviu para, em minutos, fazer cair a máscara de polidez, respeito e delicadeza do cerimonial do encerramento.

Começa a chover. No palco do gramado os presidentes da Fifa, da anfitriã, da França e da Croácia participam da premiação da inédita vice-campeã e da bicampeã mundial, a seleção francesa. Aos primeiros pingos surge um e-nor-me guarda-chuva. Ele é posicionado para proteger os convidados, entre eles uma dama, a mandatária croata? Não.

O apetrecho impede que apenas e tão somente o poderoso Putin seja protegido do aguaceiro que, em questão de minutos, encharca as autoridades. Os jogadores, recebendo suas medalhas e cumprimentos, cá entre nós, não têm do que reclamar, querem mesmo é festejar a conquista.
As câmeras da transmissão oficial reproduzem as imagens para o mundo e mostram a cena constrangedora por vários minutos. O terno do presidente Emmanuel Macron, da França, já havia até mudado de tom, de tão molhado estava. Assim como a camisa xadrez da seleção croata e os cabelos da presidente Kolinda Grabar-Kitarovic, nada resistiu a chuvarada que desabou sem dó nem piedade celestiais.

Finalmente começam a surgir outros guarda-chuvas. Menores. Eles são distribuídos aos assistentes para que protejam os convidados. Só que... mais uma vez, diante do mundo, as prioridades são invertidas. Primeiro eles. Eis que chega uma proteção para Macron. Depois, os próprios assessores se garantem...

Ali se via como a banda toca: todos protegendo os chefes e se protegendo. Sem ninguém tomar a iniciativa de, num ato de gentileza, oferecer abrigo à única mulher na linha de frente da cerimônia, a presidente da Croácia.

O que há de anormal na cena? Nada. Esta é a ordem mundial, a vida, a sociedade. É o terceiro milênio! Onde (ainda) é preciso matar um leão por dia para se impor. A vitória foi francesa, mas Macron, ao distraidamente esquecer tudo que sua professora e companheira deve ter lhe ensinado em sua convivência sobre como tratar as mulheres, colaborou para agigantar ainda mais o feito da Croácia e de sua presidente.

A que viaja de avião na classe econômica, paga sua passagem com dinheiro do bolso e tem descontados de seu salário os dias que acompanhou, como torcedora nas arquibancadas, a incrível trajetória da seleção de seu país que, como ela, surpreendeu o mundo...
  
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM FIM...delcueto.wordpress.com

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11 de jul de 2018

Sol e chuva com você - crônica de Valéria del Cueto


Sol e chuva com você

Texto e foto de Valéria del Cueto
Pluct Plact totalmente ambientado, definitivamente à vontade, se sentindo quase em casa, está impregnado do espírito carioca. Só quando ele baixa é capaz de turbinar seus sentidos sem perder a consciência do paraíso presente quase perdido. Se não for assim... é desespero! Bem que tentou se aprofundar, encontrar os princípios, delinear teorias, estabelecer parâmetros, enquadrar os conceitos básicos que permitem a sobrevivência no cenário espetacular de uma cidade em processo de falência existencial. Desistiu.

Só a encantaria pregada e estudada pelo professor e historiador Luiz Antônio Simas, entrincheirado no Bode Cheiroso, pé sujo de subúrbio do Rio de janeiro, para explicar o fenômeno. E, como extraterrestre, Pluct Plact sabe reconhecer os efeitos desse processo!

Imbuído de sua missão de olheiro das penúltimas, últimas e imprevisíveis possíveis novidades do mundo exterior para sua amiga e confidente, a cronista mais que nunca voluntariamente enclausurada do outro lado do túnel, mudou um pouco seu local de pouso escrevinhante. Trocou a Pedra do Arpoador pelo famoso Posto 9, entre a Vinícius e a Joana Angélica, na praia de Ipanema.

Cariocamente caminhado pela orla foi atraído pelo som do sax de um grupo que se apresentava na Vieira Souto. Não, não é o barulho chato de bate estacas imposto pelo evento da cerveja Itaipava no Arpoador! Sem direito a DJ pop e desperdício de infra, o instrumento era acompanhado pelo baixo e a bateria da Dub Club Band. Arrancou aplausos e assobios entusiasmados nos intervalos de quem parou para apreciar os improvisos jazzísticos encerrados no embalo de Alceu Valença: “Não, não quero mais brincar de sol e chuva com você...não suporto mais brincar...”

O recado faz Pluct Plact voltar à sua missão (delicada, diga-se de passagem) de na fresta da lua levar as f(r)estas das ruas à cela da cronista.

Tá fácil começar pela Copa da Rússia. A que será lembrada pela atuação impecável do Santo dos Bolões Perdidos. E foram muitos. Especialmente se considerarmos que, apesar de no início não levar muito a sério a participação brazuca no certame, o bolão sempre foi de fé!

Com o passar dos jogos da primeira fase, vagarosamente, o espírito da festa só não pegou mais que o sarampo. Aquele que, depois de erradicado do território nacional, volta a fazer vítimas a torto e a direito. Nas oitavas já não existia amanhã. A pátria vestia as chuteiras da seleção, gemia e rolava junto a cada presepada do rapaz que torrava o coco a cada troca de cor dos cabelos e respectivo penteado, quer dizer, a cada partida disputada.

Enquanto isso, livres leves e soltos os de sempre tramavam e executavam seus planos pré-eleitorais fazendo e acontecendo em benefício dos parças nas barbas da pátria distraída com a competição esportiva.

Mas, pra variar, começam a botar o carro na frente dos bois e, quando o assunto passou a ser se os campeões do mundo visitariam ou não a capital federal, eis que a Bélgica enquadrou a nação e colocou no devido lugar o escrete canarinho.

Não sem antes permitir que alguém tivesse a luz de gravar o ágape matutino oferecido pelo prefeito do Rio de Janeiro, o bispo licenciado porém ativo e operante (como ouvimos) da igreja Universal, Marcelo Crivella. Eis que foi introduzido no imaginário carioca sua mais nova musa. A Márcia! Obreira e funcionária indicada nos registros de áudio como contato para agilizar operações de catarata, vasectomias e demandas na saúde municipal, quase uma São Pedro. Detentora das chaves do paraíso do furo das filas quilométricas do sistema de regulação da saúde. Ao Dr. Milton coube a função de trazer para perto dos templos dos 250 pastores presentes interessados quebra-molas e pontos de ônibus...

Para resumir, porque a fresta de luar não dura para sempre, uma última efeméride. O surpreendente domingo ioiô de Lula. “Libertado” por um juiz de plantão nas férias do judiciário, enquadrado por Moro, liberado de novo pelo plantonista, mantido na cadeia pelo relator do processo. Depois do juiz dar prazo de uma hora para que a Polícia Federal o soltasse, o ex-presidente acabou permanecendo na sede da Federal de Curitiba após mais uma contraordem. Dessa vez, do presidente da tchurma. Um fica-e-sai que movimentou o feriado emendado frustrado, já que terça não será mais folga com a eliminação do Brasil...

Fechando o informe, aquele lembrete que, certamente, arrancará da cronista seu melhor sorriso: o Mengão continua líder!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM FIM...delcueto.wordpress.com

Studio na Colab55

29 de jun de 2018

De poeta para poeta - Miranda homenageia Rafael Ovídio / Uruguaiana

Canto XXX- Luiz de Miranda

Rafael Ovídio,
poeta de Uruguaiana,,
onde plana
suave e grave
com seus versos
Que rolam pelo universo
disciplinados e belos.
Transcendem as ruas da cidade,
onde é dono
da melhor poesia
que há em torno de si.
Lida o bastante
por lindes da linguagem
à margem do rio Uruguai.
É homem dilacerado
no seu doce poema
Que é tema da verdade
do que vê e do do que sonha.
Parado no meio do mundo
olha o sol de frente,
cantas estrela e escreve
na paixão da brisa leve.



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