
Essa difícil vida fácil
Texto e fotos
de Valéria del Cueto
Consegui! Cheguei na praia. Por
incrível que pareça, a primeira de 2026. Antes, só caminhadas pela orla. Resultado:
escassez de crônicas, incluindo as carnavalescas.
Agora não dá mais pra enrolar.
O tempo melhorou e, como dizia Giovanne Improta, personagem de José Wilker, “O
tempo ruge e a Sapucaí é grande”. Ruge e fica concentrado. Em três finais de
semana teremos passagens das 12 escolas de samba do Grupo Especial pela pista
três vezes.
Faz a conta comigo: dois com
ensaios técnicos de todas as agremiações do Especial, incluindo testes de som e
luz do sambódromo, mais o desfile oficial e a passagem das quinze escolas da
Série Ouro, o grupo de acesso, de sexta a terça-feira do carnaval. Bota na
lista o cortejo de lavagem da pista e parte do grupo das crianças.
A outra parte desfila na sexta-feira,
antes do Desfile das Campeãs, no sábado depois do carnaval, com as seis escolas
melhores classificadas no Desfile Oficial. Contando com as Campeãs, teremos,
então, mais um final de semana. Quatro no total!
Como dizia Vinícius de Morais, “é
preciso peito de remador” para aguentar esse rojão e viver um grande amor...
Antigamente parte dessas
atividades eram distribuídas em deliciosos finais de semana desde o dia Nacional
do Samba, 2 de dezembro, até o carnaval. Agora, como tudo na vida, o calendário
carnavalesco ficou compacto e extenuante. A resposta que dou a esse excesso de
atividades é ficar seletiva, deixando de lado uma qualidade que parece extinta:
a contemplação.
Falei em excesso de atividades?
Então vamos acrescentar na nessa listinha, que parece uma corrida maluca
iniciada com a abertura do Fan Fest Rio Capital do Carnaval no dia do padroeiro
da Cidade Maravilhosa, São Sebastião, 20 de janeiro, o encontro de 1243
ritmistas na praia de Copacabana. A Super Bateria entrou para o Guinness, o livro
dos recordes.
Foi apenas a abertura da
programação que o Rio Carnaval preparou para mostrar o que é e como se prepara “o
maior espetáculo da Terra”. Tudo gratuito, mediante a inscrição no aplicativo
do evento.
Junto, foi dada a largada dos
desfiles dos 462 blocos cadastrados na programação da prefeitura para se
apresentarem no centro da cidade e em vários bairros cariocas. Fora aqueles que
saem no susto, em desfiles paralelos, tipo flash mob, marcados em cima da hora!
A região do Saara, a 25 de
março local, fervilha de foliões e turistas em busca de fantasias e acessórios
carnavalescos. A novidade é uma tiara de cabelo feita com fios, adereço que
parece uma touquinha com penduricalhos de enfeites.
As redes sociais estão lotadas
de imagens e sugestões para a folia. Quem não curte carnaval está lascado!
Muito mais do que quem não dá a mínima às estrepolias do BBB e fica aturando
aquele monte de tolices entre os cortes dos ensaios de rua, discussões sobre
enredos, sambas, barracões e os últimos preparativos dos desfiles.
Incluindo a chegada (pra lá de
atrasada) dos recursos para finalizar os trabalhos das escolas de samba. A
prefeitura só liberou a verba esse ano e o alcaide recebeu os sinceros (?) e
públicos agradecimentos das agremiações contempladas. Como se o aperto dos
trabalhadores fosse uma coisa normal! O campeão da maldade e maior patrocinador
da festa, com R$ 40 milhões, foi o governo do estado.
Cláudio Castro, o governador,
que é evangélico, fez o povo do samba pagar todos os seus pecados antes de
liberar a verba para o evento que traz mais lucros para o poder público no
calendário turístico anual com seus 6 milhões de visitantes e a previsão de vultuosos
R$ 5,7 bilhões movimentando a economia.
A indústria do carnaval
continua sendo tratada como produto de segunda categoria por quem não respeita
nossos organogramas de desenvolvimento de projetos e cronogramas de pagamentos.
O dindin estadual foi liberado 29 de janeiro, 14 dias antes do desfile.
Se está ruim para as grandes,
imagina para as agremiações dos grupos inferiores. As maiores escolas ainda têm fôlego para
segurar a onda. Mas pensa nos grupos de acesso da Sapucaí e nos que desfilam na
Intendente Magalhães. Um verdadeiro desastre na organização das entidades é provocado,
ano a ano, pelo atraso na liberação dos repasses. Quanta maldade. E ninguém
pode reclamar, é claro...
Parece que as forças superiores
concordam comigo. Enquanto escrevia no quadrado que ocupo na canga esticada na
areia de Ipanema, as nuvens chegaram correndo pelo céu, antes azul. O vento agita
as folhas do caderninho.
Nem me mexo, a chuva que virá
será um treino para os dilúvios que ano sim e outro também (com raras exceções),
costumamos enfrentar na Sapucaí. Estou apenas preparando minha imunidade corporal.
Vem carnaval, mas sem areia,
por favor...
*Valéria del Cueto é jornalista
e fotógrafa. Crônica da série “É carnaval” do SEM
FIM... delcueto.wordpress.com
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