Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Mesa e escrita, por Gabriel Novis Neves

7 de dez de 2014

Mesa e escrita, por Gabriel Novis Neves

Assim como a filosofia popular convencionou dizer que “quem não gosta de samba, bom sujeito não é”, desconfio sempre dos que  desprezam o prazer da boa mesa.
Comer, entre os prazeres, é o mais longo, isso no âmbito da percepção sensorial pura, não  aquela estimulada por substâncias químicas.
Escritores como Aldous Huxley, nos falam, por exemplo, dos prazeres provocados pela abertura das portas da percepção através de substâncias alucinógenas, tais como a mescalina, substância muito em moda nos anos 60. Estamos falando dos prazeres triviais. Daqueles extraídos do dia a dia e que já fazem parte do DNA de cada um de nós.
A realização do sexo pleno, que é o clímax do desejo animal, a alegria e o bem estar pós a eliminação de substâncias tóxicas para o organismo, o bem dormir, com o seu universo de fantasias oníricas, o prazer da contemplação da natureza, o delírio dos cheiros que se perpetuam desde a infância até a fase adulta e, finalmente, as delícias descobertas pelo paladar, estas sim, compartilhadas por todos e com aprovação social integral.
Observo que a arte de escrever tem pontos em comum com a arte da boa mesa.
A da escrita trabalha com a alquimia das palavras, enquanto a outra trabalha com a alquimia dos sabores. Ambas, reféns de muita imaginação e sensibilidade.
Aliás, a maioria dos escritores revela em seus contos essa enorme afinidade.
Fernando Pessoa, por exemplo, conta de sua enorme paixão  por certo arroz ao caril com gambás (leia-se arroz ao curry com camarões) lembrança de sua estada na África do Sul ao tempo em que lá morou com seu padrasto, na época cônsul de Portugal no referido país.
O nosso famoso baiano, Jorge Amado, era outro que sempre mesclava seus contos com as delícias preparadas por seus personagens, apimentando assim todos os outros desejos que compunham a trama.
O mesmo se repete nos livros de todos os grandes escritores, o que prova que o bem escrever está sempre muito atrelado ao bem comer.
Felizmente, nos dias atuais, com o advento da “geração saúde”, a arte do bem comer vem sendo incentivada.
A indústria da anorexia, incentivada pela indústria da moda, não está conseguindo prosperar tanto quanto desejava e já começam a desfilar as formas femininas mais roliças que tanto encantaram os homens durante tantos séculos.
O prazer da comida, tal como todos os outros, é fundamental para um bom equilíbrio físico e, principalmente, mental.
Sem boa alimentação  prazerosa, não há energia vital, essa que move o mundo.

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