Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Vadio, por Gabriel Novis Neves

12 de dez de 2014

Vadio, por Gabriel Novis Neves

Os dicionários nos dizem que vadio é aquele indivíduo que não tem ocupação. 
Manoel de Barros conseguiu reabilitar o vadio - que é quem pratica a vadiagem - dizendo que certas profissões para serem bem exercidas há necessidade de não se ter ocupação. 
Diz que trabalhou intensamente como fazendeiro durante dez anos, período que não escreveu uma única palavra. 
Tinha como objetivo consolidar um patrimônio para poder vadiar e, somente assim, ficar à disposição da sua inspiração poética. 
Nunca conseguiu fazer poesias, observar as insignificâncias se premido por preocupações bancárias, notas promissórias, pagamentos de funcionários e administração dos seus bens materiais. 
Precisava de uma renda mínima para a sua manutenção com dignidade e que lhe desse a paz de espírito para fazer o que mais gostava - criar versos simples e belos. 
Nessa cota de vadiagem estariam contemplados o silêncio e a compreensão do seu núcleo familiar. 
Ao contrário daquilo que muitos pensam, a criação intelectual é um trabalho que exige muito esforço, disciplina e, finalmente, talento. 
Tenho observado que mesmo em um país onde não se incentiva a literatura como o nosso e, refletindo na educação das nossas crianças que terminam em inaceitáveis percentuais, é cada vez maior o número de jovens e adultos que conseguem publicar livros com os seus sonhos e pesadelos. 
Muitas delas terminam seus currículos sem entenderem o que leram ou o que lhes foi ensinado, tal a maneira obsoleta usada pelos métodos de ensino. 
São pessoas das mais diferentes camadas sociais que têm necessidade de registrar fatos que marcaram suas vidas. 
Os primitivos se reuniam para contar suas histórias e a da sua gente. É uma necessidade quase biológica escrever em determinada fase da nossa existência. 
Apesar de o ato ser prazeroso, é extremamente exaustivo. 
Nélida Pinõn relata que lê durante, pelo menos, quatro horas por dia. Sem leitura o pensamento fica aprisionado, pressionando a nossa imaginação. 
A vadiagem é um pré-requisito importante para exercer na sua plenitude a função de escritor. 
“Minha alma quer sair para o infinito ou a alma do mundo quer entrar em meu coração”. (Tagore). 

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