Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Desbunde, por Gabriel Novis Neves

19 de mar de 2015

Desbunde, por Gabriel Novis Neves

Desbunde
Esta palavra apareceu pela primeira vez nos anos 60, e volta com toda a força na atualidade. Para o povo, descrente do país do futuro e de suas políticas equivocadas, só resta mesmo o “desbunde”. 
O último carnaval do desbunde foi no ano de 72, e teve como musa a cantora Gal Costa, que inflamava as multidões com seu inesquecível refrão:   “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”. 
Eram anos sombrios, em plena ditadura e, naquela época, era uma tradição bem brasileira não responder com armas, e sim, com o mais completo desbunde. 
Segundo observadores, esse processo voltou a acontecer  nesse último carnaval quando a festa popular foi comemorada à exaustão pelas massas  populares das diversas classes sociais. 
Quem sabe não seja esse o mecanismo mais saudável a ser usado em tempos de crise? Sociedades primitivas sempre  apelaram para danças, rezas e festejos diante das adversidades da natureza. 
Passamos a exorcizar a nossa tristeza através de uma alegria quase patológica, logicamente quase sempre com auxílio de substâncias químicas estimulantes. 
Dessa maneira o povo se diverte, surge a grande economia do carnaval e o poder se exime por alguns dias de suas culpas. 
Esse fato nos remete a um site atual em que mulheres vítimas de violência escrevem cartas de amor para si mesmas no intuito de reencontrar a autoestima perdida.
Ao que consta, esse seria um meio de reencontro com o equilíbrio vital necessário para seguir buscando caminhos viáveis. 
Estendo esse conceito de desbunde para uma espécie de caos consentido. 
Valores até então respeitados vão perdendo a sua validade, sejam eles econômicos, culturais, morais ou religiosos. 
Nunca a semântica das palavras foi tão elástica! As discrepâncias de toda ordem deixaram de ter a conotação pejorativa de outras épocas. 
Novos conceitos e novos costumes, através de uma boa lavagem cerebral, vão se agregando paulatinamente e condutas ditas espúrias nos chocam cada vez menos. 
Milhões de dólares desviados que nos assustavam em corrupções, já são bilhões e, quem sabe, em breve, trilhões. 
A propina foi escancarada para o país como um fato corriqueiro. 
Pessoas tidas como baluartes da integridade - tanto do mundo político quanto do mundo empresarial - aparecem nas páginas policiais como reis da corrupção e do deboche.

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