Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: De caçador a caça, por Gabriel Novis Neves

25 de nov de 2015

De caçador a caça, por Gabriel Novis Neves


De caçador a caça 

Durante a minha prática médica nesses últimos sessenta anos, muitas foram as reclamações das mulheres com relação ao comportamento afetivo-sexual de seus companheiros. 
O que realmente me espanta é que, apesar das grandes transformações vivenciadas pelas mulheres a partir da revolução sexual dos anos sessenta, as queixas têm sido reiteradas e, até mesmo, mais enfáticas e mais desinibidas, em todas as faixas etárias. 
O homem, desde sempre um animal predador, tem como premissa genética o sexo fortuito, pelo simples prazer, descompromissado de qualquer vínculo, a não ser o da reprodução. 
A mulher, pelos condicionamentos repressivos aos quais foi submetida durante séculos, e também por razões fisiológicas e hormonais, tem a sua sexualidade muito vinculada aos estímulos basicamente cerebrais e, portanto, bem mais diferenciados. 
Mal comparando, é como se o homem dependesse apenas de um botão disparador, enquanto a mulher de todo um painel repleto de conexões. 
Essa grande diferença entre os gêneros, aliada à falta de informação e de educação sexual, é a causa de tantos questionamentos e incompreensões  no quesito comportamento sexual. 
Isso na natureza é muito bem resolvido, pois as fêmeas, de qualquer espécie, apenas aceitam o conluio sexual durante a fase do cio, o que é absolutamente respeitado pelos machos. No animal irracional não existe a possibilidade de estupro.
Nós humanos fazemos exatamente o contrário, desrespeitamos todos os nossos instintos naturais. Culturalmente fomos condicionados a tratar as mulheres apenas como objetos do nosso desejo, ignorando os seus ápices de atividade sexual. 

A mulher moderna, ainda confusa e convencida da igualdade de seus direitos e deveres, passou a exigir de si mesma e de seus prováveis futuros companheiros um comportamento para o qual os machos tradicionais não estavam preparados, ou seja, a aceitação da mescla de liberdade com libertinagem. 
Homens queixam-se que as mulheres modernas, com a falência do amor romântico, perderam a noção de que o instinto primordial do macho é o de caçador. 
Mulheres queixam-se da menor procura para vínculos mais estreitos, e não apenas os de satisfação sexual imediata. 
Enfim, as conquistas femininas arduamente conseguidas transformaram-se em novos questionamentos no plano afetivo. 
Além disso, a mulher moderna, muito competitiva, passou a exercer o papel de caçadora, e não de caça, para a qual foi biologicamente programada. 
Discute abertamente, até em redes sociais, suas avaliações outrora íntimas quanto ao tamanho e performances masculinas, tornando os pobres machos apequenados diante de situações nunca antes vividas e, portanto, inseguros na sua sexualidade. 
A meu ver, essas percepções equivocadas têm sido a grande causa do aumento dos desencontros amorosos no momento atual. 
Pela lei da oferta e procura, se a caça é abundante, o predador se torna menos interessado. 
A juventude, diante dos exemplos das gerações mais velhas, começa a adotar o poliamor, em que duas, três ou mais pessoas, independente do gênero,  passam a se relacionar afetiva e sexualmente de maneira aberta, sempre caracterizada pela ausência de posse. 
Alguns programas televisivos em horário nobre, já discutem esses relacionamentos. 
Os adultos, para corresponderem aos padrões sexuais apregoados pelas mídias - inclusive as pornográficas - nas atividades atléticas e frequentes enchem-se de substâncias que, a rigor, só deveriam ser usadas em casos graves de disfunção erétil e, mesmo assim, com controle médico. 
Não por acaso, essas substâncias são campeãs de vendas medicamentosas. 
Os idosos, nessa onda competitiva, acabam enfrentando os graves efeitos colaterais dessas drogas e muitos deles são levados à morte prematuramente. 
Todo esse quadro de desinformação sexual já deveria ter sido resolvido se, alijadas as hipocrisias, fosse obrigatória como matéria nos currículos escolares a desmistificação da sexualidade. 
É preciso que tabus e mitos além da compreensão histórica de tantos desencontros nessa área sejam discutidos abertamente nas salas de aula de todo o país. 
Não adianta rotular de laicas as escolas se elas continuam formando pessoas cobertas de amarras sociais, culturais e religiosas que impedem o seu crescimento na área mais importante da vida humana - a sexualidade.

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