Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Foco perdido, por Gabriel Novis Neves

30 de out de 2014

Foco perdido, por Gabriel Novis Neves

Estaria o mundo totalmente desfocado, ou seria o meu olhar, habituado ao enquadramento de molduras para as minhas lentes, o responsável pela limitação de tudo que vejo?
O nosso saudoso escritor, João Ubaldo, confessa que algumas de suas companheiras de cama sugeriam que ele tirasse seus óculos durante suas performances amorosas. Não gostava de fazê-lo, e considerava essas senhoritas umas degeneradas.
Seremos todos condicionados a ver somente a realidade que nos interessa?
De certa feita, fiquei muito impressionado com as fotos tiradas por um cego. Suas imagens eram focadas pelo olhar transmitido pelos outros sentidos.
Assim, consegui entender que nem tudo que vemos corresponde a uma realidade única, mas a várias, dependendo de quem, e de quando, ela  nos é  mostrada.
É preciso que todos os nossos outros sentidos estejam conectados com a intensidade do olhar a fim de que o mesmo não se deforme.
Atrizes importantes, portadoras de lentes de contato, como por exemplo, Marieta Severo, nos dá notícia sobre a dificuldade de continuar um diálogo em cena quando da perda momentânea de uma de suas lentes. É como se o  olhar fosse fundamental na conexão com a voz que emana de seus parceiros de trabalho.
O verbo é cego, mas é ele que cria as imagens.
Eu, por exemplo, mesmo após uma bem sucedida cirurgia para correção de catarata, sinto-me bem mais seguro ao enquadrar meu olhar através de lentes, mesmo sabendo não ser propriamente delas dependente.
Há no ar uma dúvida geral - estará o mundo desfocado, ou estaremos nos habituando progressivamente a contornos menos nítidos em tudo e em todos? A que caminhos estarão nos levando essa distorção da realidade?
Estudos neurocientíficos já indicam a questionabilidade entre o certo e o errado, uma vez que a realidade é totalmente diferente para cada pessoa, donde se conclui que há inúmeras realidades.
Parece jogo de palavras, mas o atual quadro político nos leva a acreditar nisso. Estamos nos comportando como um bando de desarvorados em busca de uma verdade que já não nos parece tão verdadeira.
Nunca na história vivemos tão perto da famosa “Caverna de Platão”. Massacrados pela força do mundo audiovisual, olhamos sombras, e acreditamos que essas sombras são a própria realidade. Imagens múltiplas, sempre nos querendo vender alguma coisa, mas que  não conseguem nos dizer mais nada. E  o pior de tudo, não conseguem mais nos comover. 

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