Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Escutatória, de Gabriel Novis Neves

3 de dez de 2014

Escutatória, de Gabriel Novis Neves

Escutatória 
Na primeira semana de aula na Faculdade Nacional de Medicina da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, uma comissão do Diretório Acadêmico solicitou permissão ao professor de embriologia, que ministrava aula, para uma comunicação importante. 
O enorme salão, repleto de calouros de cabeça raspada com máquina zero, atentamente ouviu o colega mais adiantado nos estudos informar que na semana vindoura estariam abertas as inscrições para o Curso de Oratória. 
Todos os “burros”, como eram tratados os novos estudantes durante um período de carência onde os “trotes” aconteciam, estavam convidados. Tinham de pagar uma pequena taxa de inscrição. 
Para evitar represálias de mais “trotes”, o salão do curso ficou repleto dos carecas de boina azul. 
O nosso Rubem Alves recomendava o curso de “escutatória” para os futuros médicos. 
Justificava dizendo que o médico, além de falar bem para ser entendido pelos seus clientes, precisava escutá-los atentamente para serem eficientes na sua profissão. 
O saudoso professor defendia a criação do Curso de Escutatória. 
Nada há de mais moderno em terapêutica médica que ouvir seus pacientes. Infelizmente essa ferramenta pertence hoje à história da medicina. 
Quantas “curas” poderiam ser realizadas pelo simples aperto de mãos nos pacientes, chamá-los pelo seu nome e ouvi-los atentamente!
Nosso organismo é finito, porém, fatores externos podem encurtar o seu prazo de validade. 
O aumento do conhecimento científico fez proliferar as especialidades médicas, e agora existem as microespecialidades. 
O paciente perdeu o seu antigo médico de família e tem um catálogo de especialistas para queixas focais. Deixou de ser visto como um todo. É visto agora por segmentos. 
Temos de voltar a escutar os nossos pacientes. Bons médicos são aqueles que, além de uma consistente formação acadêmica, sabem escutar e auscultar. 
Com a implantação da medicina de alta tecnologia, a escutatória tornou-se inviável, pois, a linguagem das máquinas obedece a outros comandos. 
O grande perdedor nessa história toda são aqueles que necessitam de um bom atendimento médico. 

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