Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Sem amanhã, por Gabriel Novis Neves

3 de mar de 2015

Sem amanhã, por Gabriel Novis Neves


Sem amanhã
Acabei de me dar conta que uma das grandes vantagens da velhice é a ausência da preocupação pelo amanhã. A premência da vida é o “hoje”.
Tudo é urgente e, ao mesmo tempo, despido da ansiedade que esse termo simboliza.
As programações, sempre de lazer, são feitas sem estresse, apenas regidas pela vontade de esticar os momentos felizes.
Como as perspectivas são menores, as realizações têm uma intensidade muito maior.
Sentimentos e sensibilidade hipertrofiados, fatos bons e ruins, adquirem sempre uma dimensão maior com as que sempre lidamos na escalada da vida.
Passamos toda uma existência nos empenhando em organizar o futuro, sempre em função de uma cultura do “ter” em detrimento do “ser”.
Transmitimos aos nossos descendentes, de uma maneira inquestionável, a necessidade de se focarem em perspectivas futuras. Raramente os incentivamos  no sentido de que não desprezem o presente, e assim, agimos nós mesmos.
Dessa forma vive a maioria esmagadora das pessoas.
Apenas na velhice nos damos conta da importância do “Hoje”.
Eliminam-se as perspectivas mesquinhas e exacerbam-se os compromissos com o prazer, tantas vezes postergados na juventude  pelas imposições sociais e financeiras.
Só aí então, podemos vivenciar a verdadeira plenitude da existência.
Compromissos desnecessários  consigo mesmo e, principalmente, com os outros, são minimizados, quando não, totalmente abolidos.
A sensação de liberdade, apesar dos entraves físicos inerentes à faixa etária, é enorme.
Sendo livres, somos plenos e em equilíbrio com a natureza, o que geralmente só começa a ocorrer nessa fase da vida,
Filhos criados, netos pelos quais não somos mais responsáveis, relações afetivas - quando ainda existem - despidas de sentimentos menores, senhores de nós mesmos - desde que continuemos lúcidos e que não sejamos vítimas de castrações familiares.
Esses, apesar das ditas boas intenções, prestam um desserviço aos idosos quando passam a interferir nas suas decisões de vida plena nesse ocaso da existência.
Alegam o perigo das doenças progressivas, a menor capacidade de deslocamento, enfim, emoldura um belo quadro de proteção, quando, na verdade, tudo não passa, na maioria das vezes, de uma tentativa de cerceamento e de dominação. A mesma dominação que sempre fizemos com os nossos adolescentes. Repete-se o quadro, com os nossos velhos...
Como sempre, tudo em nome de valores arcaicos.
Resta ao idoso ter presente, quando possível, esse tipo de manipulação que impossibilita a felicidade nessa derradeira etapa de vida e que, se bem administrada, poderá ser uma das melhores da nossa existência na terra.
Nosso “amanhã” é “hoje”, e só...

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