Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Relacionamentos tardios, por Gabriel Novis Neves

13 de mai de 2015

Relacionamentos tardios, por Gabriel Novis Neves


Relacionamentos tardios 
Tenho muitas dúvidas se os relacionamentos amorosos tardios são realmente benéficos aos idosos. 
Possuidores de tantos traumas do passado, eles carregam marcas profundas na sua personalidade e que passam a funcionar como obstáculos para novos vínculos afetivos.  
Isso explica porque os jovens estão sempre em galeras, enquanto os idosos estão mais propensos ao bloco do eu sozinho.  A imagem da solidão costuma acompanhar essa fase final da vida. 
A grande maioria dos velhos não exerce o seu presente, apenas se fixa na repetição de seus modelos e experiências neuróticas do passado, inviabilizando, portanto, a perspectiva de um futuro promissor, ainda que não tão longo. 
Tornam-se cargas pesadas para os seus circunstantes o que, como num círculo vicioso, redunda em mais baixa autoestima. 
Olhando em volta, o filme é sempre mais ou menos o mesmo, repetindo-se em todos os níveis, onde apenas os personagens têm vestimentas diferentes, denotando uma melhor ou pior condição sociocultural. 
Claro que a diminuição da capacidade física, algumas vezes acompanhada da mental, torna o idoso um ser bastante discriminado, não só entre os chamados “entes queridos, mas também em relação aos outros idosos”. 
Essa sensação de insegurança inerente à idade acontece no geral, e costuma trazer no seu bojo as crises de solidão e de identidade.
Nas classes mais abastadas esses efeitos são minimizados pela possibilidade de novos interesses, novas viagens, novos horizontes. 
Entretanto, no quesito afeto, as coisas são sempre mais difíceis. 
No caso da perda do/a companheiro/a, a sensação de abandono é ainda maior. 
A simples presença do outro, mesmo que já não tão valorizada, é responsável por uma enorme sensação de segurança na velhice. 
Aliás, como nessa fase nos tornamos muito parecidos às crianças, nos vinculamos às pessoas em busca de proteção, tal como fazíamos com os nossos pais. 
Novos relacionamentos são sempre difíceis nessa época da vida, pois não temos mais a autonomia que tínhamos em jovens. 
Raramente se vê uma família que estimule o seu idoso a novas experiências afetivas. Ao contrário, o estado depressivo justifica “os cuidados de cerceamento” e tudo fica coerente com a sociedade hipócrita vigente. 
Vejo apenas os muito egoístas e os lobos solitários como as únicas pessoas idosas capazes de peitar o sistema, uma vez que, centrados em seus próprios umbigos, conseguem se alienar de todo esse esquema falso protetor capaz apenas de acelerar o processo de envelhecimento, notadamente fabricado. 
Ao castrar as iniciativas humanas, decreta-se a sua morte. 
No reino animal, os bichos se desvencilham de suas crias muito precocemente e voltam à sua liberdade existencial. 
Isso não acontece com a maioria dos humanos, que vão acumulando pela vida afora o peso pela felicidade dos filhos, dos netos, como se isso fosse possível. 
Em países desenvolvidos, políticas visando essa faixa etária são levadas muito a sério e programadas para que a sociedade absorva, ou, pelo menos, neutralize um pouco as mazelas da velhice. 
Entretanto, ao que tudo indica, ainda estamos muito longe de nos interessarmos por um mercado que não gera lucros ao sistema, ao contrário, apenas o onera com as suas pensões.

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