Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Amor e desilusão, por Gabriel Novis Neves

10 de jun de 2015

Amor e desilusão, por Gabriel Novis Neves


Amor e desilusão 

Por mais de meio século exerci com amor a profissão de médico da área básica de saúde – Ginecologia e Obstetrícia. 
Dedicação, comprometimento, despojamento, humanismo, solidariedade e um profundo respeito a todos que me procuravam, independente da classe social e econômica, marcaram a minha trajetória. 
Acho até que abusei do fato de praticar assim o meu ofício de médico, muitas vezes sacrificando a atenção que deveria prestar à minha família. 
O tempo passou, o mundo foi globalizado e a medicina judicializada. 
Neste momento, o ingrediente mais importante na profissão de cuidar de doentes é impedido quando o que realizamos não é ciência ou arte, e sim, entrega ao nosso semelhante fragilizado. 
Com esse corte na indispensável relação médico-paciente, o meu amor pela medicina foi se transformando em uma enorme desilusão. 
Pelos critérios atuais o exercício dessa antiga profissão está totalmente descaracterizado da concepção de Hipócrates, o pai da medicina. 
Não é possível exercer industrialmente essa ocupação apenas para sobreviver com um mínimo de dignidade. 
O tempo que cada paciente necessita de seu médico não pode ser mensurável pela produtividade. 
O pior é que neste estado de coisas desapareceu a confiança entre médico e paciente, situação impensável há alguns anos. 
O médico passou a não ter tempo disponível para fazer uma boa anamnese, onde se inicia o processo da hipótese diagnóstica. 
A grande maioria não possui mais este essencial equipamento a uma boa consulta, pois, Planos de Saúde e SUS, roubaram essa possibilidade. 
Este é o perfil do profissional oferecido pela medicina socializada (!).  
Assim como existem bons e maus médicos e clientes, aumentou cada vez mais esse fosso, impedindo o exercício da mais humana das profissões, com tudo nivelado por baixo nesse binômio médico-cliente. 
A medicina mudou de rumo onde, para o seu desempenho, é obrigatório ter preparo de um atleta velocista no atendimento para receberem um salário aviltante. 
Sentimos que os jovens que ainda procuram a medicina como profissão fogem das especialidades básicas – pediatria, clínica geral, cirurgia geral e ginecologia-obstetrícia, e optam por uma atividade voltada à vaidade humana e às máquinas de impressionantes resultados tecnológicos. 
Os nossos serviços públicos de atenção básica à saúde, estão em níveis inaceitáveis de atendimento por falta de profissionais, embora o Brasil seja um dos países com o maior número de escolas médicas do mundo. Aqui, importamos médicos! 
O amor pela profissão foi vencido pela desilusão.
A reversão dessa situação só será minorada quando resolvermos nossos problemas educacionais. 

Sem educação não se faz saúde, aliás, não se constrói nada.

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