Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Acerto de contas, por Gabriel Novis Neves

9 de jul de 2015

Acerto de contas, por Gabriel Novis Neves

Acerto de contas 
É certo que em algum momento da vida aquele jovem rebelde que, aliás, quase todos fomos um dia, tem o encontro definitivo com aquele pai conservador, visto até como déspota.
Penso que esse encontro acontece sempre, mais cedo ou mais tarde ou, quem sabe, até de uma forma mais dolorosa, a póstuma, onde só restam os traços vagos de uma relação que poderia ter sido e não foi.
Figuras paternas de ontem – e até nos dias de hoje - costumavam se distanciar irremediavelmente de seus filhos.
Era uma das maneiras encontradas para manter a estrutura familiar sob normas rígidas de funcionamento, pensava-se na época.
Nem sempre por prepotência, nem sempre por falta de afeto.  Muito mais, talvez, por timidez, por insegurança e até por medo de não serem amados pelo que realmente eles eram, e não, pelo que pareciam ser em virtude de todo esse engessamento emocional.
Dessa forma, pessoas que deveriam ser inteiras e cúmplices pela própria convivência diária familiar, passam a funcionar como estranhos no mesmo ninho.
Claro que esses acertos de contas também ocorrem nas relações maternas, sendo apenas atenuados em virtude da maior intimidade entre as partes.
No caso dos meninos, além de tudo, há um distanciamento físico muito grande ditado pelas normas culturais de cada povo. Manifestações afetuosas mais presentes eram rechaçadas nas famílias mais conservadoras.
Os pequenos lapsos verbais abafados na infância tornam-se o caldo de cultura para os grandes ódios que se manifestam na vida adulta.
A criança, até aos sete anos de idade, ainda que não consiga extravasar por meio de palavras os seus sentimentos, intui todos os mecanismos de rejeição a ela submetidos e, geralmente, eles vêm à tona logo no início da adolescência.
Nessa fase costumam chegar também as questões econômicas, quando filhos são advertidos de que, enquanto não tiverem os seus próprios ganhos, terão que se submeter às normas da casa, sejam elas autoritárias ou não.
Todos esses comportamentos apenas conseguirão postergar esse necessário acerto de contas em que, guiados enfim pela razão, pais e filhos poderão reavaliar finalmente o desnecessário de toda essa hierarquia familiar que tanto sofrimento causa a todos.
Penso que a verbalização diária - franca e honesta - é a única possibilidade de uma convivência que não necessite de perdões ou ressentimentos mútuos futuros. 

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