Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Contrastes na areia, por Valéria del Cueto

29 de out de 2016

Contrastes na areia, por Valéria del Cueto

contrastes-na-areiaContrastes na areia

Texto e foto de Valéria del Cueto
Combinação perfeita: sol praia e caderninho. Um pouco de vento para quebrar o calor. O mar não está propício para grandes aventuras a não ser que você esteja de prancha e conheça os segredos das valas, bocas e correntes do Arpoador/Ipanema.

Quem tem um caderninho e está com saudades da sensação da caneta deslizando pelas páginas pode, por um dia, dispensar algo maior e mais duradouro que um mergulho para dar um gás nos cachos. Depois de alguns dias de chove-não-molha-muito a previsão (de novo) é de chuvas  trovoadas, então... Vamos aproveitar o sol da tarde.

No trajeto, bem na frente, um grupo de garotos de bermudas, chinelos e mochilas foi interceptado no portão de saída para a praia do Parque Garota de Ipanema. Com educação o policial pediu para abrirem as mochilas, perguntou de onde vinham (Jacaré).

Barrou. Dali, deram meia volta. A explicação é o grande número de furtos na área, conta um representante da autoridade, autêntico enxugador de gelo. São menores e vem sem. Documentos e nem um responsável maior de idade. Meia-volta!

Chegam aos poucos e quando se juntam na areia formam grupos de mais de 30 garotos. E partem pra cima. Um ataca e corre para o grupo. Todos parecidos. Não dá pra reconhecer quem deu o bote. E encarar é difícil.

De 8h às 12h a praia é um paraíso. Daí em diante, até as 17h, hora que começam a chegar os turistas para o  famoso pôr-do-sol e o policiamento é reforçado, é que o coro come. Os locais, inclusive das comunidades vizinhas, tentam ajudar para impedir o caos, mas não dão conta.

A última novidade são os ataques noturnos. O local é um point de surfistas, com uma boa iluminação e a vista é espetacular. Esses dias corre a história de que quase jogaram uma mulher que reagiu ao bote, na parte das pedras, lá de cima. Eram tantos que a polícia precisou fechar um perímetro para conter o bonde. Eles estão reagindo a autoridade policial que sabe pouco poder fazer para conter a ousadia. Os problemas aconteceram por noites seguidas. Os integrantes dos bondes comemoram seus ganhos pelo facebook, acredite.

Tempos modernos que afastam o prazer das coisas simples como poder estender a canga na areia, puxar o caderninho e empunhar, distraída do entorno, a caneta. Essa sim, um grande veículo de transformação social.

Não dá. O mesmo menor barrado na entrada do Parque  circula pelo pedaço, nas proximidades do Posto 8.  Roda pra cá, roda pra lá, chega junto a uns turistas que escolhem peças de bijuterias artesanais, pergunta o preço olhando, não as peças que se diz interessado, mas mapeando o local. Vai em frente rodeando os grupos e checando as possibilidades.

O caderninho reclama atenção, pede concentração, exige coerência. O vento murmura e a tarde avança. Pássaros cruzam o céu quase sem nuvens.

A harmonia é quebrada por uma gritaria. A mulher  enfurecida. Pede respeito ao vendedor de caipirinha que, jura, trará uma mulher “para lhe dar uma coça”, por que não é covarde e não bate em... mulher!

A curta e patética história: O vendedor oferece o produto. A mulher não quer. O cara insiste. A mulher derruba a bandeja com os copos com todos os drinks do vendedor. Só que a praia está vazia. Só tem outros... vendedores. O pau quase quebra!

Isso não é uma fábula fabulosa. É a realidade nua e crua. Aquela que para mudar precisa de reformas estruturais e de conduta. Em Brasília, Renan vai de juizeco...

A educação é pilar básico para regular as relações e ser cabeça de ponte para tempos menos cruéis, de mais amor e gentileza. Pense nisso quando, no domingo, escolher o prefeito de sua cidade.

O futuro agradece àqueles que (ainda) acreditam.
*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Arpoador” do Sem Fim...

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