Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Benhur fala de Miguel Ramos - onde possa estar, além de nossos corações! Uruguaiana/Chile.

1 de fev de 2017

Benhur fala de Miguel Ramos - onde possa estar, além de nossos corações! Uruguaiana/Chile.

Eu dormi no Aeroporto Internacional de Santiago do Chile,  esperando meu voo de volta ao Brasil, e quando acordei e fui escovar os dentes vi, de longe, meio de lado, o Miguel. Não demorou mais que um segundo para eu perceber que, obviamente, não poderia ser o “Mig”. Mas foi um daqueles segundos dos quais retemos alguma coisa pouco específica e que contamina os segundos sucessivos causando a impressão de que tudo durou muito tempo. Bem que podia ser o Mig, vivendo no Chile às escondidas. Se tem alguém que brincaria com a morte sem nenhum pudor é o Mig. Aliás, ele fez isso várias vezes. Hoje, acordei no Brasil, fui escovar os dentes e, no facebook, lá estava o Mig de novo, numa lembrança. É claro que era um outro Mig, um jovem, que eu jamais conheci. O que eu conheci era velho. Ser velho era uma de suas profissões. Discursava desilusões e nos engrupia uma visão de mundo pessimista, desesperançosa e cheia de ranços. Fazia isso tudo como um alerta. Contava que havia visto de tudo e que nada deu certo. A política, o amor, a vida em geral... mas então, entre um discurso desesperançoso e outro, ele dizia um poema. Ele dava aquele sorriso contido de quem não pode deixar-se abrir em gargalhada porque ainda não terminou a frase, porque não terminou o olhar - o Mig se comunicava muito com olhares e pausas. O Miguel nos enganou tantas vezes, se fez de morto, se fez de louco... às vezes, se fazia de desesperançado pra nos atribuir responsabilidades. Noutras, era generoso o bastante pra nos dar esperanças. Eu e a Val éramos suas maiores vítimas e isso sempre foi uma espécie de privilégio. O Fred um dia me disse: "existe algo de que jamais se poderá acusar o Miguel: de não ser condescendente". O Mig morreu pouco tempo depois de eu ter deixado Uruguaiana. Foi quando percebi o que Heráclito queria dizer sobre tomar banho duas vezes no mesmo rio... que a cidade que eu tinha deixado pra trás eu já não conseguiria nem mais visitar, porque já era outra coisa. Tô compartilhando isso só com vcs dois - Val e Fred -, porque queria compartilhar com alguém e só talvez pra vcs faça algum sentido. Já que o Miguel era parte de uma engrenagenzinha da qual vcs também faziam parte e porque ainda que isso não se diga vcs estão sempre na minha bagagem. Pra onde eu vou e de onde eu volto. Espero que estejam bem. Meu carinho e minha lembrança.


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