Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Ditadura do corpo, por Gabriel Novis Neves

25 de fev de 2015

Ditadura do corpo, por Gabriel Novis Neves

Ditadura do corpo 
O grande pintor belga Rubens mal poderia imaginar em 1639, que uma de suas maiores obras, “As Três Graças”, quatro séculos depois, viria a ser criticada pela imperfeição das formas. 
Os três belos nus eram a representação das virtudes, como a Beleza, a Caridade e o Amor. 
Na mitologia grega “as Três Graças” representavam as deusas da Beleza, da Sedução, da Fertilidade, da Natureza e da Dança. 
Nos dias atuais - em que as pessoas não mais se permitem ser o que são - seus nus, venerado pela antiguidade, são  a visão que aterroriza as mulheres, a da celulite. 
Outros pintores da época fizeram quadros semelhantes, sempre focados na emoção que eles causavam pela simples contemplação. 
Pessoas absolutamente individualizadas exibiam,  despreocupadas, suas formas, quer nas alcovas, quer nos lugares públicos, totalmente livres de qualquer patrulhamento. 
Com o aparecimento da sociedade de consumo, logo a estética foi vista como um grande filão para altos lucros. 
Práticas paradoxais de comportamento foram rapidamente absorvidas pela sociedade e a humanidade foi se transformando num grande objeto a ser consumido. 
Primeiro passo seria estabelecer padrões estéticos únicos, uniformizando a coletividade. 
Surgiu assim a proliferação intensa das academias, prometendo a todos, em todas as idades, corpos esculturais, ainda que, em muitas vezes, em detrimento da capacidade articular  de cada um. 
Lucros astronômicos, levando consigo a indústria dos acessórios esportivos. 
Simultaneamente, aumento do número de programas televisivos de culinária, incentivando  o gosto por alimentação requintada  e a frequência a restaurantes grifados dirigidos por grandes chefes. 
Exacerba-se, não mais a alimentação saudável, mas sim o requinte no comer e no beber. 
Por outro lado, a obesidade apresenta níveis crescentes em todo mundo, principalmente nas classes menos abastadas que, por falta de tempo e dinheiro, fazem uso mais frequente da chamada “fast food”. 
Festas são o que há de melhor para a constatação desse exército de pessoas - se mulheres, com cabelos longos lisos, cílios postiços, seios siliconados e corpos anoréxicos vestidos cada vez mais sumariamente. 
A singularidade não mais existe nesse cardápio. 
Pelo contrário, o ser diferente passa a ser estigmatizado. 
Quem não se submete ao mercado é descriminado e vítima de preconceitos. Isso inclusive se reflete nas oportunidades de trabalho e nos meios sociais que rejeitam os que não pertencem aos padrões pré-estabelecidos. 
A velhice tonou-se inaceitável, já que o mercado dirigido a essa faixa percebeu que esse nicho só faz aumentar, tendo em vista os avanços tecnológicos. 
A ânsia de nos tornarmos clones de nós mesmos através de plásticas e tratamentos dermatológicos inovadores, tem sido a parte melancólica dessa nova cultura que vem transformando velhos, e outros nem tanto, em deformados pela obsessão da juventude eterna. 
O fato é que a humanidade foi se anestesiando com o tempo no tocante a valores, permanecendo apenas o que dela pode ser contabilizado em termos de lucro. 
As leis do capitalismo selvagem não vieram para brincar, e fabricar mentes programadas é uma das metas a ser alcançada. 
Técnicas subliminares de propaganda lavam em pouco tempo mentes até razoavelmente esclarecidas. 
Esses são os nossos tempos. 

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