Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Caras de lua cheia, por Gabriel Novis Neves

6 de mai de 2015

Caras de lua cheia, por Gabriel Novis Neves


Caras de lua cheia
Fico imaginando que tipos de novas substâncias conseguirão preencher os vincos e as rugas que surgiram em certas pessoas ao longo de uma vida mal vivida, apenas dirigida para o sucesso e para a superficialidade que a acompanharam.
Sim, porque, até o momento, isso não foi conseguido, já que, em reuniões sociais zeradas de interesse, a não ser a obtenção de novos negócios, o que vemos são máscaras mal feitas do que gostaríamos de nos ter tornado com a cruel passagem do tempo. 
Botoxados, homens e mulheres carregam o peso da mentira e da ausência de criatividade, como se seus cartões de visita fossem tão somente os clones de si mesmas. 
Afinal, a quem queremos enganar? Ou será que a única coisa que restou da nossa imagem é a sensação de uma carcaça carcomida? 
E as famosas Serenidade e Sabedoria decantadas em verso e prosa através dos tempos? Onde ficaram nesse mundo do hiperconsumismo e da superficialidade como temas? 
Esses comportamentos são mais gritantes em países subdesenvolvidos, já que civilizações com maior peso cultural tendem a usufruir de suas vidas de maneira mais condizente com os seus valores. 
Encanta-me, em viagens à Europa, não só a visão das belas cidades medievais, mas, principalmente, o envolvimento de casais com suas cabeças brancas, seus ares descontraídos, desfrutando juntos  da beleza que a vida ainda pode lhes oferecer depois da criação da prole. 
Claro, isso ocorre em países em que as pessoas se tornam independentes, com seus cordões umbilicais cortados na época certa e prontos para o mundo  que os aguarda com todas as suas incertezas. 
Nesses casos, filho, não é propriedade individual, e sim, a nossa  contribuição à manutenção da espécie. Uma vez apto, ele decidirá as suas próprias regras na condução de suas vidas.  
Aqui na terrinha, ao contrário, submetidos a um falso protecionismo, transformamos os nossos descendentes em figuras menores que, de preferência, girem ao nosso redor, transformando-os assim em presas fáceis para qualquer tipo de lavagem cerebral, seja ela comportamental, social, política e até mesmo estética. 
O tão falado “borogodó” ultrapassa todas as fronteiras da estética e é encontrado geralmente em pessoas que fogem  de padrões pré-estabelecidos por sociedades decadentes, incapazes de priorizar   a beleza do singular  ao invés da mesmice do coletivo. 
Caras de “lua cheia”, que outrora denotavam uso de corticoides para tratamentos de doenças específicas, hoje desfilam como fantoches sem fios suspensores na busca da juventude eterna que só mesmo aos próprios pode convencer. 
O poder de massificação, denominador comum de sociedades menos evoluídas, é de tal maneira forte que mesmo pessoas tidas como coerentes, entram nessa festa macabra que vai do nada a lugar algum. 
No entanto, cada um escolhe como quer envelhecer - com ou sem dignidade. 
O caminho da superficialidade das coisas pode ser um caminho sem volta.
Contrariamente, aqueles que optam em seguir outro caminho, são pessoas livres para a experimentação de outras bagagens emocionais e impedem que elas se ensimesmem em seus próprios umbigos. 
A busca por novos interesses e por novos aprendizados é a única possibilidade de ativação de novas zonas cerebrais capazes de transformar a velhice numa fase da vida bastante agradável, descompromissada dos danos estéticos pertinentes. 

Adoro a juventude, mas, sem a perspectiva, por mais remota que seja, de competir com ela.

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