Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Medo, por Gabriel Novis Neves

29 de jun de 2015

Medo, por Gabriel Novis Neves

Medo 
Descia de elevador no meu prédio e logo ele parou para a entrada de uma criança de uns doze anos de idade.
Ela era franzina, sem sinais físicos da puberdade, vestia camiseta e short e sandália de dedo, vendendo inocência. 
Cabisbaixa, “viajamos” até o andar térreo. 
A impressão que a menina me passou é que tinha realizado uma das fantasias da infância – dormir na casa de uma amiguinha. 
Fui criança, pai, avô e sei perfeitamente que, em sua maioria, as crianças têm essa necessidade emocional, puramente cultural. 
A minha surpresa ocorreu quando, ao abrir a porta do elevador no andar térreo, ela me perguntou com olhar e voz de medo: “é perigoso andar na rua”? 
Era uma manhã de domingo, mais ou menos às nove horas, com sol escaldante e pessoas na rua em suas andanças matinais. 
Indaguei onde morava e, para meu espanto, respondeu que era na mesma rua do meu prédio, a uma distância de três quadras. 
Acalmei-a dizendo que poderia seguir tranquilamente para a sua casa, já que o movimento na rua era intenso.  
Gente indo para a missa, outros para a padaria da esquina, sendo ainda grande o número de atletas de final de semana caminhando e correndo pelas calçadas do bairro. 
Ela saiu andando, porém, demonstrando certo medo. Eu entrei no meu carro para visitar um amigo.  
As palavras e a imagem de medo naquela criança despertou em mim um antigo questionamento: criança tem medo? Este medo que nós adultos sentimos ao sair na rua?  
Pude constatar através daquela criança que, sim, as crianças têm medo de andar pelas ruas sozinhas. Apesar de ser de manhã, em uma rua movimentada e ser considerado bairro de classe média alta. 
Lamentavelmente, esta atitude infantil traduz o grau do temor em que se encontra a sociedade em geral.  Ninguém confia em ninguém. 
Depois, uma espécie de remorso tomou conta de mim. 
Apesar da minha vontade, tive medo de oferecer uma carona àquele pequeno ser e ser mal interpretado. Principalmente pelos pais. 
Passei o resto do dia revendo conceitos educacionais e a realidade social a que chegamos, onde impera a violência, especialmente, contra as mulheres e crianças. 
A conclusão é a que venho repetindo nos meus escritos: “a humanidade não é viável”. 
Pobres crianças amedrontadas! Precocemente tiveram de substituir o medo do bicho-papão pelo medo a um simples e pequeno caminhar pelas calçadas de sua cidade! 
Estamos num mundo cruel com uma sociedade alienada. 
Impossível pensar em futuro melhor para nossos descendentes!

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