Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Envelhecer, por Gabriel Novis Neves

17 de jul de 2015

Envelhecer, por Gabriel Novis Neves

Envelhecer 
Só os velhos sabem que o envelhecer é uma arte para poucos. 
Em uma existência longa, com muitas etapas vencidas, usufruir o fim dessa luta como uma vitória a ser comemorada exige muito controle emocional. 
Saber a hora de parar, e ocupar o que resta do tempo disponível, em boas condições de saúde e vitalidade, para usufruir o que esse final de vida pode apresentar de melhor, é uma tarefa mais complicada do que possa parecer. 
Temos de fechar as cortinas antes que elas nos expulsem do palco da vida. 
Muitos fazem opção errônea e procuram a reclusão que, certamente, levará à solidão, sempre péssima companheira. 
A não obrigatoriedade de nada fazer é um perigoso instrumento à nossa disposição. 
Quando em pleno processo de produtividade esperávamos por este momento, ignorávamos como seria difícil enfrentá-lo. 
O direcionamento de toda uma vida voltada ao trabalho produtivo que “dignifica o homem”, segundo o que desde cedo nos foi ensinado, cria dificuldades para viver sem pensar na labuta. E sua ausência nos causa um profundo sentimento de culpa. 
Sei que este “fenômeno” não se aplica a todos os seres humanos que, automaticamente e lentamente, vão fazendo as necessárias substituições vitais para uma velhice tranquila. 
Estes vivem satisfeitos sem compromissos que lembrem obrigação, como trabalho e horário, descobrindo, inclusive, novos interesses, que só o devaneio pode proporcionar. 
Fatores educacionais, religiosos e sociais, entre outros, interferem no comportamento não aceitável do momento de parar com as nossas atividades laborais. 
A moral estabelecida penaliza o lazer. O resultado disso é, para alguns, uma sensação de culpa e, até mesmo, de apatia. 
Criamos o reflexo condicionado do “trabalho produtivo”. O seu descondicionamento depende de ajuda médica, cujos resultados aparecem em longo prazo, e nem sempre satisfatórios. 
Guimarães Rosa dizia: “se nascer é difícil, viver é muito mais”. 
Saber viver, e bem, em todos os ciclos da vida, é um privilégio para poucos!

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