Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: O ato de sofrer, por Gabriel Novis Neves

20 de jan de 2016

O ato de sofrer, por Gabriel Novis Neves


O ato de sofrer 
Somos condicionados por inumeráveis regras sociais e religiosas a acreditar que o ato de sofrer é uma consequência imediata do ato de viver. 
Muitas vezes, os sofrimentos físicos e os emocionais se confundem, impedindo a sua separação. 
Estudos médicos recentes vêm cada dia mais atribuindo doenças ao efeito deletério de algumas enzimas produzidas pelo nosso organismo durante estados de ansiedade, de crises depressivas e de períodos de estresse prolongados. 
Nessas circunstâncias fabricamos as chamadas catecolaminas, além do cortisol fabricado pelas glândulas suprarrenais, ambos extremamente prejudiciais ao nosso viver. 
Ao contrário, pessoas otimistas, possuidoras de uma atitude positiva diante da vida, liberam as chamadas endorfinas, que funcionam com verdadeiras pílulas do prazer. 
Sempre que nos desmotivamos da vida, temos uma queda do tônus cortical, e, dessa forma, ficamos mais suscetíveis a todos os tipos de enfermidade. 
Vírus e bactérias com as quais convivemos normalmente tornam-se agressivas quando isso acontece. 
Atualmente, doenças degenerativas, inclusive o câncer e as doenças autoimunes, já são, na maioria das vezes, consideradas decorrências de distúrbios emocionais graves. 
Pessoas mais saudáveis são sempre portadoras de um bom sistema nervoso que não seja submetido a grandes ambivalências. 
Desde muito cedo somos condicionados, paulatinamente, a responder a todos os reflexos que nos são impostos, sejam eles patológicos ou não. 
Como as sociedades, de um modo geral, são regidas por regras incompatíveis com os nossos instintos básicos animais, com o tempo vamos tornando-nos mais ou menos reprimidos e doentes, tudo dependendo do caldo cultural repressor onde fomos criados. 
Isso se reflete mais tarde, já na fase adulta, em dificuldades orgânicas básicas, seja na ingestão abusiva de alimentos, seja nos distúrbios da evacuação, da micção e, principalmente, nas graves disfunções sexuais, tão comuns na prática médica. 
Crianças são submetidas desde muito cedo a tarefas para as quais elas não estão preparadas impedindo, dessa forma, o ócio criativo, fundamental ao seu pleno desenvolvimento. 
Não são respeitadas as leis da natureza que permitem que os filhotes se desenvolvam lentamente sem o acúmulo de tarefas que lhe são impostas sucessivamente, tais como: aulas de natação, de música, de judô, idiomas, enfim, a total castração da criança em termos fisiológicos. 
Impedimos dessa maneira que as nossas crianças vivam a idade do descompromisso que, na maioria das vezes, nem na velhice é conseguida. 
Quando se percebe, desponta aquele adolescente revoltado, agressivo, subvertendo todos os conceitos arcaicos que lhe foram impostos pela hipocrisia social. 
Resultado: incompreensão dos pais que, ingenuamente se julgam injustiçados, pois tentaram “fazer o melhor”. 
Isso vai sendo passado de geração a geração, já que papos honestos e verdadeiros sobre todos os temas nunca são discutidos nos meios familiares e, muito menos, nos escolares. 
O sistema sinaliza para que todos os bens sucedidos devam ser preparados para “o ter”, e não, para “o ser”. 
Nessa armadilha se esvai a felicidade, pelo simples fato de se formarem adultos hipócritas e reprimidos e que não conseguem compactuar emoções. 
De tudo isso, só se conclui que “o sofrer” está muito ligado ao aprendizado de cada um. Quanto mais reprimido o indivíduo, maior a qualidade e a intensidade do seu sofrimento. 
Reconheço que para nós médicos, é bem mais fácil lidar com essas filigranas emocionais, razão pela qual, até bem pouco tempo, antes da sociedade de consumo, médicos, e terapeutas eram bem mais valorizados. 
Com a pressa do mundo atual, trocamos todos esses valores pelo imediatismo das relações em todos os níveis, infelizmente. 
Triste imaginar que tantas pessoas que conviveram toda uma vida são meros desconhecidos, sem a real intimidade que deve ser fundamental ao amor. 
Na mentira e na hipocrisia não se chega a lugar algum. Transformamos-nos num bando de almas penadas, cada dia mais solitário, ainda que acompanhadas... 

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