Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Maxixe, por Gabriel Novis Neves

18 de abr de 2015

Maxixe, por Gabriel Novis Neves

Maxixe

Vivo o presente, pois o futuro é um prêmio, mas não esqueço o imenso legado que é o meu passado.
Pincei momentos gostosos daquilo que passou, já que no presente a cada dia recebemos uma dose de veneno das nossas autoridades maiores e, talvez, sentindo esse futuro incerto
Lembrei-me da 1ª feira livre na minha pequena cidade. O dia era seis de janeiro, de um ano do início da década de quarenta.
Chovia muito neste dia. A feira era uma grande novidade para nós. Foi montada na Avenida Generoso Ponce.
Durante os dias que precederam a inauguração do comércio na rua, só se ouvia falar na data da inauguração.
O esperado dia chegou e perguntei à minha mãe se ela não iria ao evento. A resposta foi surpreendente: - “Eu não posso deixar a casa e as crianças, mas gostaria que você fosse fazer as compras”.
Recebi como um troféu o convite e a pequena cesta feita de fibras de folhas de palmeiras para trazer os legumes e frutas comprados.
Não me recordo da quantia de réis (moeda da época) que ela me deu para as despesas.
Debaixo do guarda-chuva deixei a minha casa e em poucos minutos cheguei ao lugar festivo.
Nunca tinha visto aquelas barracas cheias de verduras, legumes, frutas, rapadura, doce de leite, farinha de mandioca, panela de barro, pau de guaraná para ser ralado, peixe do Rio Cuiabá, carne seca e até remédios da flora.
Fiquei totalmente perdido e atordoado diante de tanta gente alegre e entusiasmada, comprando um pouco de tudo que encontrava em exposição.
Impiedosamente, a chuva continuava o tempo todo e eu não conseguia comprar nada.
Quase voltando para casa, satisfeito por participar de uma conquista própria de cidade grande, resolvi adquirir algo para colocar na cesta vazia. Seria humilhante diante de tantas ofertas “passar em brancas nuvens” sem nada escolhido.
Uma barraca estava cheia de maxixe, um legume verde espinhoso muito apreciado por aqui quando feito com carne picadinha e arroz.
Enchi a cesta, pois o preço era ridiculamente barato. Ao retornar para casa minha mãe foi auditar as minhas compras e disse que tinha cumprido com distinção o meu dever, após conferir o troco do dinheiro disponibilizado para a missão.
No entanto, fez uma delicada pergunta, que guardo até hoje como uma relíquia da minha formação: - “Por que só trouxe maxixe?”.
“Era o produto mais barato da feira, mamãe”, respondi educadamente.
Ela somente sorriu com condescendência amorosa diante da minha resposta.
Mas, aquele sorriso me fez reconhecer a minha total inabilidade e incompetência para compras seletivas.
Aquela compra longínqua do maxixe me impede até hoje de frequentar shoppings e supermercados. 

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