Mostre-me um exemplo TRIBUNA DE URUGUAIANA: Porteiras fechadas, por Gabriel Novis Neves

25 de jun de 2015

Porteiras fechadas, por Gabriel Novis Neves

Porteiras fechadas 
Quem já passou por todas as fases do desenvolvimento humano e teve o privilégio de ancorar na faixa seleta dos idosos, sem a Doença do Alemão, lembra-se de tudo que aconteceu na sua vida, embora, poucas recordações estejam disponíveis nas prateleiras do consumo.
Certa ocasião, alguém, só para contrariar o grande poeta Vinícius de Morais, disse que “viver é melhor que ser feliz”.
Uma verdadeira blasfêmia para quem procurou, insistentemente, a felicidade, divulgando em poemas e canções populares a sua verdade liberticida.
Certa ocasião, entrevistado por uma jovem e inexperiente repórter na mesa de um bar, o poeta da canção, já no horizonte da sua despedida, respondendo a uma pergunta sobre o que ele achava do seu estado atual, afirmou que era um idoso e que, felizmente, a juventude era breve.
Apenas um momento de incertezas e descobrimentos, sendo o melhor dele aquele que já passou.
Depois dessa fase de explosão hormonal e sentimentos, tudo fica mais lento e ninguém tem pressa de nada.
É como se estivéssemos na madrugada da vida, sem vontade de ver o novo dia chegar.
O idoso sabe que o futuro somos nós, e o tempo não espera.
Daí o fascínio que esta fase da minha vida me causa.
Isso nada tem a ver com a chamada “melhor idade”, termo pejorativo para mim.
É a fase da compreensão e da doação, em que sabemos que não possuímos o dom de mudar o mundo, muito menos a vida das pessoas.
Nós é que mudamos com a idade.
A vida nada nos dá ou nos deve. Nós é que estamos nela.
É sempre emoção.
Será que escrevo apenas para tornar a minha vida mais excitante?
Pelos descaminhos da vida tentamos, frequentemente, abrir porteiras fechadas que, entretanto, bastava que tivéssemos um pouquinho mais de sensibilidade para compreender que elas estavam totalmente trancadas e que seria em vão o nosso esforço em tentar abri-las.
Aprendemos nessa fase outonal, que tudo que nos encanta deve estar harmoniosamente escancarado.
Não há mais tempo para tentar decifrar o indecifrável e, muito menos, para tentar mudar qualquer coisa que funcione como obstáculo.
É só partir para o futuro, quem sabe qual, mas, sem o compromisso de derrubar as porteiras fechadas dos sentimentos.
Que venham com força todas as emoções verdadeiras, pois elas é que nos darão forças para manter a alegria de viver.
O nosso futuro é hoje!  

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